quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A dialética da greve

Quando os bisavós dos petistas, os bolcheviques, estavam na oposição ou na clandestinidade, não só eram a favor de todas as greves como as estimulavam sempre que podiam. A greve, diziam, era um direito do trabalhador, além de possuir, supostamente, a virtude de fortalecer o movimento operário e enfraquecer o capitalismo. Só um governo bárbaro, inimigo da civilização democrática, seria contra o direito de greve, escrevia Lênin. Lindas palavras.

Tão logo conquistaram o poder, os bolcheviques proibiram as greves. Explica-se: como Lênin e seus camaradas e-vi-den-te-men-te encarnavam os interesses históricos do proletariado (assim como, mais tarde, Fidel, Kim Jong-Il, Pol Pot e outros), organizar uma greve contra o governo bolchevique equivalia a colocar-se ao lado do capital, contra o trabalho. Logo, se ousavam erguer a cabeça contra um governo do povo, os grevistas mereciam ser tratados como bandidos. E assim se fez. Você já leu sobre alguma greve na União Soviética? Em Cuba? Pesquise...

É por isso, leitor, que todos, rigorosamente todos os sindicatos que, durante governos do PMDB ou do PSDB, puxam greves pelo menos uma vez por ano, exigindo sempre, na pauta de negociações, o pagamento dos dias parados – o dos professores é o caso mais típico -, praticamente somem da vida pública assim que a prefeitura ou governo do Estado cai nas mãos do PT. Não porque os salários melhorem. É que, além de dar aos dirigentes sindicais amigos um bom emprego, os governos do PT tratam seus grevistas com mão de ferro – como ficou evidente, agora, no caso da EBC. Com os representantes do progresso social e do futuro da humanidade não tem essa de negociar com braços cruzados ou pagar os dias parados: essa é uma fraqueza dos "neoliberais". Contra os que desafiam os representantes do povo, heróis do bolsa-família, deve-se ter a mão dura: demissões, processos, corte dos vencimentos, etc. Em suma, a boa e velha repressão “burguesa".

A isso, leitor, chama-se “dialética”.

domingo, 19 de outubro de 2008

Herança Maldita

Estive em Belo Horizonte. Às vésperas da eleição municipal, a esquerda está desesperada, não apenas porque vai perder a administração da cidade para um certo Leonardo Quintão, mas, principalmente, porque centenas de militantes profissionais vão perder seus empregos na prefeitura, inúmeros contratos vão ser cancelados, dezenas de ONGs vão ficar sem seus meios de financiamento, etc. etc. O tal Leonardo Quintão representa, para a esquerda, tudo o que existe de ruim no mundo: "inculto", "demagogo", "corrupto", "evangélico" (para a esquerda, herdeira das Luzes, ser evangélico é crime, a não ser que o candidato seja do PT e se chame, digamos, Benedita da Silva...). Não que a esquerda não apóie, regularmente, alguém com várias dessas características - é só ela olhar um pouquinho para cima. O problema, muito mais grave, é que a esquerda administra Belo Horizonte há quase uma geração - dezesseis anos! E isso nos leva à pergunta inevitável: quem é o responsável pela situação atual? O PMDB? O PSDB e o "neoliberalismo"? Por que a esquerda não conseguiu, em dezesseis anos, educar minimamente a população, vaciná-la contra a demagogia, contra a mentira transformada em método, contra o populismo rasteiro que gosta de contrapor "o povão" às "elites"? Não conseguiu porque esse é, há décadas, o discurso do lulo-petismo: a defesa da incultura (que seria "popular") contra a cultura (que seria "burguesa"); a agressão verbal como estilo de discussão política; o rigor contra os "inimigos" e a leniência com os amigos; o coitadismo que transforma todo pobre em não-cidadão, uma vez que a ele nada se pode pedir, nem mesmo que ajude a manter sua cidade limpa. Dezesseis anos dessa política teriam que produzir algum fruto. Produziram. E a criança tem a cara dos pais.