quarta-feira, 23 de maio de 2012
Telecine Pipoca-Com-Muita-Manteiga
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Estatística fonética
quarta-feira, 28 de março de 2012
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
O direito de rezar
Para uns, o PM é um funcionário público como qualquer outro e, como qualquer outro, tem todo o direito de fazer greve... - desde que um mínimo de proteção aos cidadãos seja assegurado. Como a proteção atual já é mínima, fazer essa ressalva e falar nada é a mesma coisa. Equivale a declarar, como se atribui a um velho político mineiro, "simpatizo muito com o Cruzeiro, sem prejuízo do grande afeto que nutro pelo Atlético e do prazer especial que me dá ver o América jogar".
Para outros, o PM é uma espécie de Madre Tereza do serviço público e, quaisquer que sejam as condições em que trabalhe, os riscos que corra e o salário que receba, é proibido de reclamar e, menos ainda, de entrar em greve. Os "especialistas" que defendem este ponto de vista parecem acreditar que é mesmo possível, sem o uso da força, ou seja, em regime democrático, obrigar alguém a trabalhar em quaisquer condições por qualquer salário.
O que nenhum dos "especialistas" se lembra de defender é uma coisa básica, elementar, fundamental para a boa vida das democracias: o armamento dos cidadãos. Se cada cidadão de bem, de currículo limpo, tiver o direito de guardar uma arma em casa e, eventualmente, carregá-la consigo, a PM pode fazer tantas greves quantas quiser. Os cidadãos de bem não ficarão, desarmados, à mercê de arrastões, invasões de domicílios e violências de todo tipo. Como fizeram recentemente em Londres, os comerciantes se reunirão e, armados, protegerão seus negócios contra a turba de saqueadores. E os cidadãos comuns poderão sair à rua ou permanecer em casa, senão sossegados, ao menos cientes de que não serão vítimas passivas do banditismo.
Os bacanas que escreveram e defenderam o Estatuto do Desarmamento como a grande solução para a violência no País estão assistindo aos eventos da Bahia pela TV, tranquilos, em seus condomínios protegidos por caríssimos sistemas de segurança. Nós, os cidadãos comuns, que não temos e não podemos ter armas, estamos em casa, amedrontados, rezando para que a violência nos poupe.
Não são mesmo admiráveis nossos políticos "progressistas"?
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Suicídio de resultados
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Trocando de navio
A se acreditar na imprensa que temos, a atual presidente da República, a mesma pessoa que todos conheceram sobejamente como ministra durante quase oito anos, e na qual jamais descobriram o mais oculto talento para a administração pública, tornou-se neste ano de 2011, precisamente após o dia 1º de janeiro, uma fonte inesgotável (perdão, leitor) de sabedoria, discrição e bom gosto. O que terá acontecido? Estaremos diante do primeiro milagre de um santo brasileiro? Infelizmente, passa-se algo bem mais prosaico.
O que está acontecendo é o desembarque lento, gradual, porém seguro da imprensa (e da intelligentsia) petista do culto a Lula. Um dia teria de acontecer, como conseqüência, inclusive, do sucesso do petismo: todos ficaram ricos, tornaram-se “gente fina” e passaram a conviver com as “elites quatrocentonas” (a que secretamente sempre admiraram), e já não dava mais, nessas condições, para continuar recebendo em casa pessoas que insistem em se comportar como operário ou líder sindical dos anos 70. Parece ingratidão, mas a verdade é que estava difícil para os "descolados" em geral e “revolucionários” agora transformados em “elite” continuar associando sua imagem cool à de um ex-operário inculto, boquirroto, machista, versado em piadas de mau gosto, que se expressa o tempo todo como se estivesse na arquibancada do Parque São Jorge. Há tempos que os membros da nova elite se viam obrigados a dar um sorriso amarelo diante do anfitrião desagradável, mas não podiam sair antes, porque, nas circunstâncias, isso equivaleria a "fazer o jogo da direita", ajudaria os "neoliberais" do PSDB e do DEM a ganhar as eleições, o que por sua vez ameaçaria conquistas imorredouras do povo brasileiro como a "justiça social", a "distribuição de renda", “o resgate da cidadania”, etc., além dos bons negócios, dos maravilhosos empregos públicos (e das aposentadorias futuras!).
Agora, com as eleições ganhas e o partido "deles" confirmado no governo (garantia de, no mínimo, mais quatro anos de excelentes negócios), já podem se desembaraçar do indivíduo incômodo com alguma segurança. Podem enterrar suas fantasias juvenis com a "classe operária" e revelar sua preferência (desde a mais tenra juventude) por um "esquerda moderna", "europeia". Estão empenhados, por isso, desde o dia 1º de janeiro de 2011, em convencer os brasileiros das virtudes superiores de um governo discreto, de uma governante que fala pouco e faz muito (??!!), de uma administração clean em oposição a um governo "barroco", etc. etc. Eles não suportavam mais ter que confraternizar todos os dias com o tal de "povo" na sua corporificação mais desagradável. Agora tudo ficou mais fácil. Não é o ideal, ainda, porque a Ungida tem alguns defeitinhos difíceis de corrigir (nesta encarnação). Mas as coisas já melhoraram bastante. E é só a imprensa chapa-branca e a intelligentsia petistas cumprirem o seu dever que tudo vai melhorar ainda mais.
Não é que estejam abandonando o padrinho; como dizia uma marchinha de antigamente, estão apenas "evoluindo de opinião".
Antes de encerrar: como advertia Marx, primeiro vem a “produção material”, depois as preocupações espirituais. Quer dizer: se, no futuro, os bons negócios e excelentes empregos forem ameaçados (além, claro, da justiça social, do resgate da cidadania e do desenvolvimento sustentável), a nova elite abre mão de seus critérios estéticos, do bom gosto, do cool e do clean e, em nome de “barrar a escalada da direita”, traz de volta o “operário” que hoje deixa embaraçadas as visitas finas.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Lendo Milan Kundera (e pensando em Chico, Veríssimo, Frei Beto...)
O totalitarismo é não apenas o inferno, mas também o sonho do paraíso – o sonho antiquíssimo de um mundo onde todos vivem em harmonia, unidos por uma única vontade e uma única fé. Se o totalitarismo não explorasse esses arquétipos, que vivem no mais profundo de cada um de nós e têm raízes em todas as religiões, jamais conseguiria atrair tanta gente, principalmente nas primeiras fases de sua existência. Quando o sonho do paraíso começa a se transformar em realidade, porém, aqui e ali surgem pessoas que se transformam em obstáculos, e por isso os governantes do paraíso são obrigados a construir um pequeno Gulag ao lado do Éden. Com o passar do tempo esse Gulag vai ficando cada vez maior e mais perfeito, enquanto o paraíso ao lado vai ficando menor e mais pobre.
Depois da guerra, Paul Éluard tornou-se o maior expoente do que se poderia chamar de “poesia do totalitarismo”. Cantava em prol da fraternidade, da paz, da justiça, de um amanhã melhor, da camaradagem, em prol do júbilo e contra a tristeza, em prol da inocência e contra o pessimismo. Quando os governantes do paraíso condenaram um amigo de Éluard, o poeta Závis Kalandra, a morrer na forca, Éluard suprimiu seus sentimentos pessoais de amizade em nome dos ideais suprapessoais e declarou em público que aprovava a execução de seu camarada. O verdugo matava enquanto o poeta cantava.
E não só o poeta. Todo o período de terror estalinista foi uma época de delírio lírico coletivo. Tudo isso agora caiu no total esquecimento, mas aí está o xis do problema. As pessoas gostam de dizer: a Revolução é bela; só o terror que decorre dela que é mau. Mas isso não é verdade. O mal já está presente na beleza, o inferno já está contido no sonho do paraíso, e se queremos compreender a essência do inferno, é necessário examinar a essência do paraíso em que ele tem origem. É muito fácil condenar os Gulags, mas rejeitar a poesia totalitária que leva ao Gulag passando pelo paraíso continua sendo tão difícil quanto sempre foi. Hoje em dia, em todo o mundo as pessoas rejeitam categoricamente a idéia do Gulag, porém ainda se deixam hipnotizar pela poesia totalitária e marcham rumo a novos Gulags ao som da mesma canção lírica cantada por Éluard no tempo em que pairava sobre Praga como o grande arcanjo da lira, enquanto a fumaça do cadáver de Kalandra subia ao céu, saindo da chaminé do crematório.
(Entre Nós. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Alguns trechos foram resumidos.)
