quinta-feira, 4 de março de 2010

Oposição: democracia; dissidentes: tirania


         
          O reconhecimento mais cabal da natureza do regime cubano é feito naquele lugar onde não há controle oficial: a linguagem. Toda vez que um jornal se refere à oposição em Cuba, escreve dissidentes. Ora, dissidente é um conceito do totalitarismo. Dissidente é aquele que ousa se apartar da unanimidade exigida pelo Partido ou pelo Chefe. Não há dissidentes nos EUA, na Alemanha ou na Holanda; essa expressão não tem sentido numa sociedade democrática. Nem mesmo no Brasil, cuja imprensa, na sua esmagadora maioria, foi seduzida pelo PT (de fato, pelas utopias totalitárias), um jornalista ousaria referir-se aos integrantes do PSDB ou do DEM como dissidentes. No entanto, no caso de Cuba, essa expressão soa natural
          Os jornalistas e intelectuais de esquerda julgam-se no dever de, mesmo um pouquinho envergonhados, defender Cuba. Entretanto, quando têm que se referir à ilha, uma espécie de bom-senso tira-lhes o juízo e força-os a escrever dissidentes onde pretendiam escrever oposição. É o triunfo do princípío do real sobre a ideologia. No fundo das suas almas progressistas, sabem que oposição é um conceito das democracias e que nas ditaduras só há dissidentes. Sabem, com o bom-senso de que foram dotados até os mais simples dos seres humanos, que Cuba é uma ilha-prisão, uma tirania cuja natureza "revolucionária" consiste em encarcerar e matar seus próprios cidadãos. Gostariam de não admitir essa verdade desagradável. Mas aí, quando estão prestes a escrever oposição,  vem o subconsciente e lhes sopra: dissidentes. É o tributo que a má consciência paga à verdade.