O totalitarismo é não apenas o inferno, mas também o sonho do paraíso – o sonho antiquíssimo de um mundo onde todos vivem em harmonia, unidos por uma única vontade e uma única fé. Se o totalitarismo não explorasse esses arquétipos, que vivem no mais profundo de cada um de nós e têm raízes em todas as religiões, jamais conseguiria atrair tanta gente, principalmente nas primeiras fases de sua existência. Quando o sonho do paraíso começa a se transformar em realidade, porém, aqui e ali surgem pessoas que se transformam em obstáculos, e por isso os governantes do paraíso são obrigados a construir um pequeno Gulag ao lado do Éden. Com o passar do tempo esse Gulag vai ficando cada vez maior e mais perfeito, enquanto o paraíso ao lado vai ficando menor e mais pobre.
Depois da guerra, Paul Éluard tornou-se o maior expoente do que se poderia chamar de “poesia do totalitarismo”. Cantava em prol da fraternidade, da paz, da justiça, de um amanhã melhor, da camaradagem, em prol do júbilo e contra a tristeza, em prol da inocência e contra o pessimismo. Quando os governantes do paraíso condenaram um amigo de Éluard, o poeta Závis Kalandra, a morrer na forca, Éluard suprimiu seus sentimentos pessoais de amizade em nome dos ideais suprapessoais e declarou em público que aprovava a execução de seu camarada. O verdugo matava enquanto o poeta cantava.
E não só o poeta. Todo o período de terror estalinista foi uma época de delírio lírico coletivo. Tudo isso agora caiu no total esquecimento, mas aí está o xis do problema. As pessoas gostam de dizer: a Revolução é bela; só o terror que decorre dela que é mau. Mas isso não é verdade. O mal já está presente na beleza, o inferno já está contido no sonho do paraíso, e se queremos compreender a essência do inferno, é necessário examinar a essência do paraíso em que ele tem origem. É muito fácil condenar os Gulags, mas rejeitar a poesia totalitária que leva ao Gulag passando pelo paraíso continua sendo tão difícil quanto sempre foi. Hoje em dia, em todo o mundo as pessoas rejeitam categoricamente a idéia do Gulag, porém ainda se deixam hipnotizar pela poesia totalitária e marcham rumo a novos Gulags ao som da mesma canção lírica cantada por Éluard no tempo em que pairava sobre Praga como o grande arcanjo da lira, enquanto a fumaça do cadáver de Kalandra subia ao céu, saindo da chaminé do crematório.
(Entre Nós. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Alguns trechos foram resumidos.)
