quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Trocando de navio


A se acreditar na imprensa que temos, a atual presidente da República, a mesma pessoa que todos conheceram sobejamente como ministra durante quase oito anos, e na qual jamais descobriram o mais oculto talento para a administração pública, tornou-se neste ano de 2011, precisamente após o dia 1º de janeiro, uma fonte inesgotável (perdão, leitor) de sabedoria, discrição e bom gosto. O que terá acontecido? Estaremos diante do primeiro milagre de um santo brasileiro? Infelizmente, passa-se algo bem mais prosaico.

O que está acontecendo é o desembarque lento, gradual, porém seguro da imprensa (e da intelligentsia) petista do culto a Lula. Um dia teria de acontecer, como conseqüência, inclusive, do sucesso do petismo: todos ficaram ricos, tornaram-se “gente fina” e passaram a conviver com as “elites quatrocentonas” (a que secretamente sempre admiraram), e já não dava mais, nessas condições, para continuar recebendo em casa pessoas que insistem em se comportar como operário ou líder sindical dos anos 70. Parece ingratidão, mas a verdade é que estava difícil para os "descolados" em geral e “revolucionários” agora transformados em “elite” continuar associando sua imagem cool à de um ex-operário inculto, boquirroto, machista, versado em piadas de mau gosto, que se expressa o tempo todo como se estivesse na arquibancada do Parque São Jorge. Há tempos que os membros da nova elite se viam obrigados a dar um sorriso amarelo diante do anfitrião desagradável, mas não podiam sair antes, porque, nas circunstâncias, isso equivaleria a "fazer o jogo da direita", ajudaria os "neoliberais" do PSDB e do DEM a ganhar as eleições, o que por sua vez ameaçaria conquistas imorredouras do povo brasileiro como a "justiça social", a "distribuição de renda", “o resgate da cidadania”, etc., além dos bons negócios, dos maravilhosos empregos públicos (e das aposentadorias futuras!).

Agora, com as eleições ganhas e o partido "deles" confirmado no governo (garantia de, no mínimo, mais quatro anos de excelentes negócios), já podem se desembaraçar do indivíduo incômodo com alguma segurança. Podem enterrar suas fantasias juvenis com a "classe operária" e revelar sua preferência (desde a mais tenra juventude) por um "esquerda moderna", "europeia". Estão empenhados, por isso, desde o dia 1º de janeiro de 2011, em convencer os brasileiros das virtudes superiores de um governo discreto, de uma governante que fala pouco e faz muito (??!!), de uma administração clean em oposição a um governo "barroco", etc. etc. Eles não suportavam mais ter que confraternizar todos os dias com o tal de "povo" na sua corporificação mais desagradável. Agora tudo ficou mais fácil. Não é o ideal, ainda, porque a Ungida tem alguns defeitinhos difíceis de corrigir (nesta encarnação). Mas as coisas já melhoraram bastante. E é só a imprensa chapa-branca e a intelligentsia petistas cumprirem o seu dever que tudo vai melhorar ainda mais.

Não é que estejam abandonando o padrinho; como dizia uma marchinha de antigamente, estão apenas "evoluindo de opinião".

Antes de encerrar: como advertia Marx, primeiro vem a “produção material”, depois as preocupações espirituais. Quer dizer: se, no futuro, os bons negócios e excelentes empregos forem ameaçados (além, claro, da justiça social, do resgate da cidadania e do desenvolvimento sustentável), a nova elite abre mão de seus critérios estéticos, do bom gosto, do cool e do clean e, em nome de “barrar a escalada da direita”, traz de volta o “operário” que hoje deixa embaraçadas as visitas finas.

Fazer o quê? Não dá para ter tudo na vida...