As políticas de reparação são apenas uma nova embalagem, agora
envoltas num celofane marxista, da velha prática tribal do kanun retratada por Ismail Kadaré em Abril Despedaçado.
De acordo com o inflexível código do kanun, o clã é responsável pelos atos cometidos por qualquer um de
seus membros – e deve pagar por isso. A dívida é imprescritível e se estende a
homens, mulheres, adultos e crianças; ninguém escapa. Essa tradição, que na
Itália deu origem à Máfia, praticou-se no Brasil por séculos, sob a forma de
sangrentas guerras familiares, depois transformadas em disputas políticas mais
ou menos incivilizadas, e hoje persiste em alguns poucos lugares,
principalmente no Nordeste. Com a urbanização e a fragmentação dos laços
familiares, estava destinada a desaparecer. Como eu disse, estava...
Sim, porque a esquerda, sempre com os pés – todos os quatro - plantados
no passado, cevada pelo ressentimento, conseguiu ressuscitar entre nós esse
costume bárbaro que já estávamos sepultando. Deste modo, em pleno século XXI,
se você é membro do “clã” dos “brancos de olhos azuis”, deve entregar sua vaga
na Universidade a um membro do “clã” dos “negros” ou dos “indígenas”, pois o kanun registra que, em algum lugar, em
algum tempo, um membro do seu clã causou mal a um ou vários membros daqueles
clãs, e estes agora devem ser reparados.
O Direito “tradicional” (certamente “de direita”) proibia que a
punição de um crime atingisse pais, irmãos, filhos e demais parentes do criminoso,
uma vez que o responsável pelos atos de um adulto seria... esse mesmo adulto, e
somente ele. O kanun, entretanto,
despreza e “supera” o Direito “tradicional”. Abole o conceito de indivíduo (segundo o qual – olha que absurdo!
- cada adulto é responsável por seus próprios atos) e resgata a noção de clã (atualizada pelo nazismo sob o
nome de raça, diferentemente do marxismo, que preferiu responsabilizar pelo Mal uma classe).
Assim, restabelecido o kanun, cancelado o Direito "tradicional", sua vida, leitor, leitora, não é mais definida
pelo que você faz, e sim pelo clã a que você pertence e pelo que algum membro
desse clã fez no passado. A qualquer momento, andando na rua, você está sujeito(a) a levar um tiro de um estranho, e talvez morra sem saber que isso aconteceu porque, embora você more no Rio de Janeiro e tenha vários amigos negros, lá no Piauí um membro do clã dos "brancos de olhos azuis" matou um membro do clã dos "negros", ou porque,
segundo a lenda, há dois séculos seu trisavô supostamente português raptou a trisavó supostamente índia do sujeito que acabou de matá-lo.
No kanun, a vingança é para sempre; a
um ciclo de ódio segue-se outro, depois outro...
O kanun, recuperado do nosso passado tribal por um pensamento que se denomina progressista,
é eterno como o subdesenvolvimento. Como uma divindade maligna, ele velará para
sempre nossa miséria.