terça-feira, 27 de maio de 2008

Modelo de barbárie

O sonho do atual governo, de boa parte dos empresários e de inúmeros intelectuais "progressistas" parece ser o modelo chinês: governo forte e com elevada capacidade de planejamento, investimento estatal maciço e mão-de-obra disciplinada. Assim, talvez, o Brasil poderia se tornar uma potência líder na América Latina e, quem sabe, como fantasiam os ressentidos de esquerda e de direita, contrapor-se à influência norteamericana nesta região do globo.

Bem, esse modelo nos já tivemos: de 1964 a 1985. Comparado ao chinês, foi benigno, pois, além de matar uma fração mínima do que mataram Mao Tse-Tung e seus asseclas, interferiu pouquíssimo na vida privada dos cidadãos, jamais tentou restringir sua liberdade de trabalho nem pretendeu estabelecer, por exemplo, quantos filhos um casal poderia ter. Pelo contrário: o "milagre brasileiro" coexistiu com intensos deslocamentos da população através do País e uma profunda transformação do padrão demográfico existente. Milhões de brasileiros deixaram os "grotões" e vieram livremente para as capitais, à procura de empregos, educação e saúde. Os filhos do "milagre" encontram-se hoje no comando de todas as áreas de atividade no Brasil; sua descendência mais ilustre ocupa há seis anos a presidência da República.

O terremoto que golpeou a China revelou mais uma vez as feições bárbaras do modelo chinês; no caso, as consequências da criminosa política do filho único aplicada pelo Partido Comunista. O desprezo dos burocratas pelos cidadãos chega ao ponto de considerar que estes, mesmo dispondo de métodos anticoncepcionais e informações, devem ser proibidos de decidir quantos filhos querem ter. O Partido decide: um filho por casal. Depois, quando um terremoto mata milhares dessas crianças, o Partido, benevolente, autoriza os pais a terem novos filhos. E os pais devem agradecer-lhe.

O modelo chinês, muito mais cruel do que qualquer ditadura que tivemos a infelicidade de conhecer, é apenas a barbárie em roupas de seda (falsa, provavelmente). Que ele seja objeto de admiração tanto da esquerda quanto de inúmeros empresários de direita, é só mais um indicador do estado de miséria intelectual em que vivemos.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Nós não somos da turma deles

Anteontem, no Senado, a ministra Dilma Rousseff explicou, para quem ainda não havia entendido, o princípio que orienta as relações do lulo-petismo com a verdade. Referindo-se aos interrogatórios a que foi submetida quando presa, explicou: "Qualquer pessoa que dissesse a verdade aos seus interrogadores colocaria em risco a vida dos seus iguais". É certo. Na guerra, os que não estão do meu lado não são meus iguais. Não tenho por que lhes contar a verdade.

Depois de conhecer a concepção da ministra sobre a guerra, pena que nenhum senador tenha tido a curiosidade de explorar suas idéias sobre a política. Se tivesse, e a ministra respondesse com franqueza, saberia que o lulo-petismo, do qual a ministra é militante disciplinada, não concebe a política como uma disputa entre iguais, circunstancialmente separados em facções, guiada pelo princípio de que todas as forças em jogo estão imbuídas de boa fé, defendem interesses legítimos e devem ter, por isso, iguais oportunidades de governar e pôr suas idéias em prática. O lulo-petismo, como pudemos ver nos últimos quase trinta anos, imagina a política como guerra, em que toda a verdade está de um lado (adivinhe qual...) e todo o erro, de outro. Por isso os petistas, quando surpreendidos a atropelar a lei, mentem com naturalidade "nunca antes vista neste país": como soldados numa guerra, sabem que só devem lealdade aos seus iguais. Diante dos outros, dos inimigos, sabem que é sua obrigação ocultar a verdade.

Para os que acreditam que os petistas mentem porque lhes falta "ética", a ministra, com seu exemplo de renúncia e sacrifício, deixou claro: ética eles têm; só não é a nossa. Lênin (A Ditadura do Proletariado e o Renegado Kautsky) e Trotsky escreveram com espantosa crueza sobre o assunto. O livro de Trotsky, muito sugestivamente, se chama A Nossa Moral e a Deles. Transpostas as coisas para o Brasil atual, nós, os que não avalizamos o petismo, somos os tais "eles". É simples assim. Tão simples - e brutal - que a maioria prefere continuar fingindo que não entendeu.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Coronelismo, emprego e voto

A Executiva do Diretório Nacional do PT proibiu a coligação entre o PT e o PSDB nas próximas eleições municipais de Belo Horizonte. Desautorizou Fernando Pimentel e deixou claro que Aécio é inimigo.

A imprensa se alvoroça, como se estivéssemos diante de um grande acontecimento político. Entretanto, a explicação para essa briga já foi dada há tempos por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. O diretório municipal é "gente de seu Fernando Pimentel". A executiva nacional é "gente de seu Luís Inácio". Os primeiros estão empregados na prefeitura de Belo Horizonte; os outros, no governo federal.

É uma luta baseada em sólidas convicções ideológicas e arraigados princípios filosóficos.