sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Madonna no País dos Coitadinhos

"Madonna pode visitar um projeto social em uma favela no Rio" - informa o Estadão. E uma mulata, certamente, vai sambar para ela, antes do show de capoeira, enquanto crianças "retiradas da rua" tocarão surdos e tamborins. Somos o zoológico do Primeiro Mundo! Qualquer idiota aureolado com o título de "popstar" vem nos visitar e corremos a lhe mostrar o que temos de melhor: nossas favelas, povoadas de Ongs que fazem "trabalho social" (com dinheiro público, claro), nossas crianças famintas, nossos cidadãos sitiados e explorados pelo tráfico! Bono, Michael Jackson, até Mick Jagger, aceitaram, curiosos, conhecer essa coisa exótica, a favvelaa, típica dos países que, nas listas telefônicas do Primeiro Mundo, aparecem como "others". Agora é a vez de Madonna. Não ocorre a ninguém levá-la conhecer um Centro de Pesquisas, uma Biblioteca, uma Universidade, um conjunto arquitetônico. Não! Isso não desperta pena; não a convence a criar, talvez, uma fundação para assistir nossas crianças "em situação de rua"; não a estimula - oh!, sonho supremo! - a adotar, quem sabe, um brasileirinho (a quem ela dará o nome de uma divindade pagã com quatro letras). Nada de lhe mostrar um Brasil "normal": o que temos de típico, o que nos faz ser lembrados em todo o mundo é a favela - de preferência cheia de crianças com os olhos marejados de agradecimento àquele ser maravilhoso que se dignou descer do Olimpo para visitá-las. De um país "normal" ninguém tem pena. E nós amamos ser O País dos Coitadinhos.

Depois nos queixamos de Lula, como se ele fosse a causa de nossos males. Não é. Ele é apenas a materialização, no plano político, dos nossos hábitos mentais mais arraigados.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ensaio sobre a besteira

Confesso. Num desses momentos de ócio absoluto, com rigorosamente nada para fazer, tive meu momento Saramago e pensei em comentar as últimas declarações do presidente da República – sobre a eleição de Bobama, sobre as enchentes em Santa Catarina (“a natureza tomou de volta o que lhe pertencia”), sobre a crise econômica, etc. Mas aí, quando eu me preparava para digitar a primeira palavra, tocou o telefone: um amigo me convidava para ver a filha dele, de 8 anos, atuar numa peça de teatro infantil. Desliguei o computador e fui.
Obrigado, Senhor, por me enviar os amigos certos nas horas de maior necessidade!