segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

A flor e o espinho

O objetivo do movimento feminista radical é simples e impossível: definir unilateralmente as regras que orientarão as relações entre os sexos. Se a fantasia por trás desse movimento um dia se realizasse, as mulheres passariam a ter absoluto controle sobre suas relações com os homens e, senhoras desse universo frequentemente incompreensível, assustador para muitos, não mais correriam riscos emocionais, não passariam por “traumas”, jamais experimentariam uma “micro-agressão” - não sofreriam no amor, em suma. É uma fantasia neurótica.
O feminismo atual, na sua versão hard, aspira, infantilmente, à eliminação da incerteza, do imponderável num dos aspectos mais essenciais da vida humana. Quer as vantagens do amor sem as desvantagens que o acompanham: o risco do engano, da desilusão, do abandono, da dor provocada pela traição e a mentira. É um delírio do pensamento progressista (absoluto controle do mundo, eliminação do acaso, planejamento integral da vida individual e coletiva) transformado em política - recorrendo ao Estado, inclusive, para punir os "dissidentes". Sua única chance de sucesso depende de homens e mulheres desistirem dessa coisa complicada chamada "relação amorosa"; perderem de vez qualquer interesse em orgasmos e outros prazeres, físicos e espirituais, que só uma relação amorosa propicia, preferindo, em lugar disso, dedicar-se a obter um alto número de likes nas redes sociais.



domingo, 10 de janeiro de 2016

Cuidando (dos votos) dos pobres


O objetivo das políticas de esquerda não é transformar os pobres em ricos. O que a esquerda oferece aos pobres são recompensas morais - bolsas, cotas, diplomas puramente honoríficos, execração dos “ricos” e da “elite”, um idioma “saneado”, etc. -, com o que os “excluídos” passam a se sentir vingados e protegidos. Sentindo-se “resgatados”, os “excluídos” pagam a esquerda com votos. E esta, no poder, se responsabiliza por continuar a “cuidar” da vida daqueles.

Criar as condições para que os pobres enriqueçam, tornem-se proprietários dos seus próprios negócios e de suas próprias vidas, financeiramente independentes, “capitalistas”, “burgueses”? Ah, isso quem faz é a direita! O socialismo “cuida” dos pobres. Se os pobres passarem a cuidar de si mesmos, para que servirão os socialistas?


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Albânia, onde nasceram as “políticas de reparação”


As políticas de reparação são apenas uma nova embalagem, agora envoltas num celofane marxista, da velha prática tribal do kanun retratada por Ismail Kadaré em Abril Despedaçado.

De acordo com o inflexível código do kanun, o clã é responsável pelos atos cometidos por qualquer um de seus membros – e deve pagar por isso. A dívida é imprescritível e se estende a homens, mulheres, adultos e crianças; ninguém escapa. Essa tradição, que na Itália deu origem à Máfia, praticou-se no Brasil por séculos, sob a forma de sangrentas guerras familiares, depois transformadas em disputas políticas mais ou menos incivilizadas, e hoje persiste em alguns poucos lugares, principalmente no Nordeste. Com a urbanização e a fragmentação dos laços familiares, estava destinada a desaparecer. Como eu disse, estava...

Sim, porque a esquerda, sempre com os pés – todos os quatro - plantados no passado, cevada pelo ressentimento, conseguiu ressuscitar entre nós esse costume bárbaro que já estávamos sepultando. Deste modo, em pleno século XXI, se você é membro do “clã” dos “brancos de olhos azuis”, deve entregar sua vaga na Universidade a um membro do “clã” dos “negros” ou dos “indígenas”, pois o kanun registra que, em algum lugar, em algum tempo, um membro do seu clã causou mal a um ou vários membros daqueles clãs, e estes agora devem ser reparados.

O Direito “tradicional” (certamente “de direita”) proibia que a punição de um crime atingisse pais, irmãos, filhos e demais parentes do criminoso, uma vez que o responsável pelos atos de um adulto seria... esse mesmo adulto, e somente ele. O kanun, entretanto, despreza e “supera” o Direito “tradicional”. Abole o conceito de indivíduo (segundo o qual – olha que absurdo! - cada adulto é responsável por seus próprios atos) e resgata a noção de clã (atualizada pelo nazismo sob o nome de raça, diferentemente do marxismo, que preferiu responsabilizar pelo Mal uma classe). 

Assim, restabelecido o kanun, cancelado o Direito "tradicional", sua vida, leitor, leitora, não é mais definida pelo que você faz, e sim pelo clã a que você pertence e pelo que algum membro desse clã fez no passado. A qualquer momento, andando na rua, você está sujeito(a) a levar um tiro de um estranho, e talvez morra sem saber que isso aconteceu porque, embora você more no Rio de Janeiro e tenha vários amigos negros, lá no Piauí um membro do clã dos "brancos de olhos azuis" matou um membro do clã dos "negros", ou porque, segundo a lenda, há dois séculos seu trisavô supostamente português raptou a trisavó supostamente índia do sujeito que acabou de matá-lo. No kanun, a vingança é para sempre; a um ciclo de ódio segue-se outro, depois outro...


O kanun, recuperado do nosso passado tribal por um pensamento que se denomina progressista, é eterno como o subdesenvolvimento. Como uma divindade maligna, ele velará para sempre nossa miséria. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Os frutos da terra



O fenômeno de Hitler não se esgota em sua pessoa. Seu sucesso deve ser situado no quadro geral de uma sociedade arruinada intelectual ou moralmente, no qual figuras que em outros tempos seriam grotescas e marginais podem ascender ao poder público por representarem formidavelmente o povo que as admira.

Eric Voegelin, "Reflexões Autobiográficas"

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O berço do Ogro Filantrópico

    A combinação de Estado-babá com democracia resulta na degeneração da República. Os serviços oferecidos pelo Estado-babá aumentam à medida que diminui o rol de cidadãos livres. Com o tempo, um número cada vez maior de cidadãos dependentes dos serviços “oferecidos” pelo Estado elegerá os dirigentes da República. A cumplicidade entre eleitores-bebês e políticos promotores do Estado-babá se tornará dia a dia mais sólida. Em seguida, naturalmente, desaparecerão da vida pública os já escassos políticos que propugnem pela liberdade dos cidadãos. E então já não haverá República nem democracia.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O gigante



Estou em Belo Horizonte a trabalho. Cansado, como um lanche no quarto do hotel, antes de dormir, e de repente ouço um troar de gritos e buzinas que sobe da avenida Afonso Pena. "Ah! - imagino - começaram os protestos contra a decisão do Supremo que deu aos golpistas do PT uma nova chance de escapar da cadeia. Os brasileiros não desejam uma nova ditadura, nem suportam mais tanta corrupção e desfaçatez! O gigante acordou!"


Nesse estado de ânimo, entusiasmado, esperançoso, vou para a janela saudar o povo rebelado. E noto, então, que as bandeiras que os manifestantes desfraldam não são a do Brasil: são completamente azuis. Ligo a TV: o Cruzeiro ganhou do Botafogo e se tornou líder do campeonato brasileiro. Ah, compreendo... Já posso voltar para o meu lanche. Desculpa aí, seu gigante!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Eu também


Tenho 1,60 m, peso 92 kg e meus pés são um pouquinho virados para dentro. Quando acabar meu mandato à frente da Associação Brasileira dos Sem Noção, vou parar de pintar o cabelo. Vou ficar igualzinho ao Rutger Hauer em Blade Runner.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Nova minoria excluída: os católicos ricos.



O Papa é "dos pobres", avisam-nos os jornais e revistas. Por que só dos pobres? Os ricos não têm uma alma que é preciso salvar? Por que, afinal, a Igreja Católica não ama os ricos com o mesmo amor que dedica aos pobres? "Ah, é uma questão de justiça. Os ricos já têm tudo". Não é verdade. Os ricos têm tudo, ou quase tudo... neste mundo. Mas essa riqueza nada representa no que se refere à Salvação, pois o reino de Deus, Jesus advertiu, "não é deste mundo" (João 18:36). No reino de Deus, os critérios que hoje utilizamos para chamar alguns de "ricos" e outros de "pobres" nada significam. No reino de Deus não há pobres nem ricos. 

Por isso, ao se declarar "dos pobres", o Papa e sua Igreja cometem um grave pecado. Fazendo subentender que os ricos já foram muito premiados (e que agora, por isso, é a vez de cuidar dos pobres), o Papa e sua Igreja declaram, por vias tortas, que, se existe um prêmio que o cristão receberá, esse prêmio está sendo entregue aqui na Terra. Os ricos já o receberam em abundância. Agora, de acordo com os princípios do direito redistributivo, a Igreja deve empenhar-se para que os pobres também o recebam. Com essa lógica, o que o Papa e sua Igreja afirmam, sem disso se dar conta, é que tudo se resume a este mundo; o reino de Deus não existe. 

Deste modo, depois de tantos séculos, tantos concílios, tantas encíclicas, tanta filosofia, descobrimos, pelas palavras singelas de um papa argentino, que o que vale, mesmo, é o velho dito popular: aqui se faz, aqui se paga. O único mundo que existe é este: o do populismo.

A América Latina nunca falha. 

terça-feira, 5 de março de 2013

As ideias devem estar a serviço do progresso social


O PT não gosta do que os jornais publicam. Ora, o que impede o PT de ter seu próprio jornal? Nada. Aliás, ele tem um jornal – que, mesmo entre os petistas, é lido por meia dúzia de gatos pingados. E é aí que está o problema: o PT gostaria que cada meditação profunda de Lula brilhasse na primeira página... do Estadão. Que os comentários sábios e tolerantes de Rui Falcão fossem manchete... na Folha. Que o Globo reservasse a primeira página do seu caderno de Turismo para, quem sabe, as fotos de viagem de Rosemary Noronha. O PT não quer o controle absoluto da mídia tal como é exercido em Cuba ou na Coreia do Norte. Ele quer, sim, que os Marinho, os Mesquita, os Frias continuem contratando e pagando seus jornalistas, recolhendo seus impostos, fazendo seus jornais chegar a cada canto do Brasil, arcando com os prejuízos quando estes se apresentarem, mas que caiba a um “conselho de democratização da informação e da cultura” ou assemelhado, constituído por ongs, sindicatos, associações de “jornalistas”, todos casualmente petistas, definir algumas questões de detalhe: isto é bom para o povo, isto é ruim, isto merece ser publicado na primeira página, isto deve ir para a lixeira. Não é censura: o PT só quer retirar dos donos dos jornais uma pequena liberdade, que lhe parece excessiva – o direito de opinar. No mais, eles podem continuar com seus jornais...

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Cotas para a Universidade

Em vez de demolir a Senzala (instituindo um ensino público de qualidade), nossos demagogos preferem sortear passes autorizando alguns escravos a frequentar por um tempo a Casa Grande. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Telecine Pipoca-Com-Muita-Manteiga

Nossos marxistas acreditam que basta dar comida ao povo para se construir uma nação. Se depender deles, o Brasil será, em alguns anos, o país dos gordos sem alma. 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Estatística fonética

Curioso: todas as pessoas que conheço são contra o racismo, a favor da justiça social e da proteção ao meio ambiente, mas nem todas conseguem pronunciar as palavras por favor  e  obrigado, e nenhuma é capaz de dizer desculpe. 

quarta-feira, 28 de março de 2012

MORREU MILLÔR FERNANDES

Uma lágrima. E outra. E outra...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O direito de rezar

"Especialistas" debatem longamente, sem chegar a lugar nenhum: PM tem o direito de fazer greve?

Para uns, o PM é um funcionário público como qualquer outro e, como qualquer outro, tem todo o direito de fazer greve... - desde que um mínimo de proteção aos cidadãos seja assegurado. Como a proteção atual já é mínima, fazer essa ressalva e falar nada é a mesma coisa. Equivale a declarar, como se atribui a um velho político mineiro, "simpatizo muito com o Cruzeiro, sem prejuízo do grande afeto que nutro pelo Atlético e do prazer especial que me dá ver o América jogar".

Para outros, o PM é uma espécie de Madre Tereza do serviço público e, quaisquer que sejam as condições em que trabalhe, os riscos que corra e o salário que receba, é proibido de reclamar e, menos ainda, de entrar em greve. Os "especialistas" que defendem este ponto de vista parecem acreditar que é mesmo possível, sem o uso da força, ou seja, em regime democrático, obrigar alguém a trabalhar em quaisquer condições por qualquer salário.

O que nenhum dos "especialistas" se lembra de defender é uma coisa básica, elementar, fundamental para a boa vida das democracias: o armamento dos cidadãos. Se cada cidadão de bem, de currículo limpo, tiver o direito de guardar uma arma em casa e, eventualmente, carregá-la consigo, a PM pode fazer tantas greves quantas quiser. Os cidadãos de bem não ficarão, desarmados, à mercê de arrastões, invasões de domicílios e violências de todo tipo. Como fizeram recentemente em Londres, os comerciantes se reunirão e, armados, protegerão seus negócios contra a turba de saqueadores. E os cidadãos comuns poderão sair à rua ou permanecer em casa, senão sossegados, ao menos cientes de que não serão vítimas passivas do banditismo.

Os bacanas que escreveram e defenderam o Estatuto do Desarmamento como a grande solução para a violência no País estão assistindo aos eventos da Bahia pela TV, tranquilos, em seus condomínios protegidos por caríssimos sistemas de segurança. Nós, os cidadãos comuns, que não temos e não podemos ter armas, estamos em casa, amedrontados, rezando para que a violência nos poupe.

Não são mesmo admiráveis nossos políticos "progressistas"?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Suicídio de resultados

Lula deu para afirmar que seus adversários querem fazer com ele o que fizeram com Getúlio Vargas - que, em meio a uma onda de denúncias de corrupção, na iminência de ser humilhado e ver seu nome associado a escândalos e imoralidades, preferiu o suicídio. Aí vem os críticos e dizem que isso é bazófia, que Lula nunca terá a coragem de Getúlio. Discordo. Acredito, sim, que Lula gostaria de, se as circunstâncias se apresentarem, morrer heroicamente, sacrificar sua vida pelo povo brasileiro - desde que isso não lhe traga prejuízos pessoais nem atrapalhe sua carreira política.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Trocando de navio


A se acreditar na imprensa que temos, a atual presidente da República, a mesma pessoa que todos conheceram sobejamente como ministra durante quase oito anos, e na qual jamais descobriram o mais oculto talento para a administração pública, tornou-se neste ano de 2011, precisamente após o dia 1º de janeiro, uma fonte inesgotável (perdão, leitor) de sabedoria, discrição e bom gosto. O que terá acontecido? Estaremos diante do primeiro milagre de um santo brasileiro? Infelizmente, passa-se algo bem mais prosaico.

O que está acontecendo é o desembarque lento, gradual, porém seguro da imprensa (e da intelligentsia) petista do culto a Lula. Um dia teria de acontecer, como conseqüência, inclusive, do sucesso do petismo: todos ficaram ricos, tornaram-se “gente fina” e passaram a conviver com as “elites quatrocentonas” (a que secretamente sempre admiraram), e já não dava mais, nessas condições, para continuar recebendo em casa pessoas que insistem em se comportar como operário ou líder sindical dos anos 70. Parece ingratidão, mas a verdade é que estava difícil para os "descolados" em geral e “revolucionários” agora transformados em “elite” continuar associando sua imagem cool à de um ex-operário inculto, boquirroto, machista, versado em piadas de mau gosto, que se expressa o tempo todo como se estivesse na arquibancada do Parque São Jorge. Há tempos que os membros da nova elite se viam obrigados a dar um sorriso amarelo diante do anfitrião desagradável, mas não podiam sair antes, porque, nas circunstâncias, isso equivaleria a "fazer o jogo da direita", ajudaria os "neoliberais" do PSDB e do DEM a ganhar as eleições, o que por sua vez ameaçaria conquistas imorredouras do povo brasileiro como a "justiça social", a "distribuição de renda", “o resgate da cidadania”, etc., além dos bons negócios, dos maravilhosos empregos públicos (e das aposentadorias futuras!).

Agora, com as eleições ganhas e o partido "deles" confirmado no governo (garantia de, no mínimo, mais quatro anos de excelentes negócios), já podem se desembaraçar do indivíduo incômodo com alguma segurança. Podem enterrar suas fantasias juvenis com a "classe operária" e revelar sua preferência (desde a mais tenra juventude) por um "esquerda moderna", "europeia". Estão empenhados, por isso, desde o dia 1º de janeiro de 2011, em convencer os brasileiros das virtudes superiores de um governo discreto, de uma governante que fala pouco e faz muito (??!!), de uma administração clean em oposição a um governo "barroco", etc. etc. Eles não suportavam mais ter que confraternizar todos os dias com o tal de "povo" na sua corporificação mais desagradável. Agora tudo ficou mais fácil. Não é o ideal, ainda, porque a Ungida tem alguns defeitinhos difíceis de corrigir (nesta encarnação). Mas as coisas já melhoraram bastante. E é só a imprensa chapa-branca e a intelligentsia petistas cumprirem o seu dever que tudo vai melhorar ainda mais.

Não é que estejam abandonando o padrinho; como dizia uma marchinha de antigamente, estão apenas "evoluindo de opinião".

Antes de encerrar: como advertia Marx, primeiro vem a “produção material”, depois as preocupações espirituais. Quer dizer: se, no futuro, os bons negócios e excelentes empregos forem ameaçados (além, claro, da justiça social, do resgate da cidadania e do desenvolvimento sustentável), a nova elite abre mão de seus critérios estéticos, do bom gosto, do cool e do clean e, em nome de “barrar a escalada da direita”, traz de volta o “operário” que hoje deixa embaraçadas as visitas finas.

Fazer o quê? Não dá para ter tudo na vida...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Lendo Milan Kundera (e pensando em Chico, Veríssimo, Frei Beto...)

O totalitarismo é não apenas o inferno, mas também o sonho do paraíso – o sonho antiquíssimo de um mundo onde todos vivem em harmonia, unidos por uma única vontade e uma única fé. Se o totalitarismo não explorasse esses arquétipos, que vivem no mais profundo de cada um de nós e têm raízes em todas as religiões, jamais conseguiria atrair tanta gente, principalmente nas primeiras fases de sua existência. Quando o sonho do paraíso começa a se transformar em realidade, porém, aqui e ali surgem pessoas que se transformam em obstáculos, e por isso os governantes do paraíso são obrigados a construir um pequeno Gulag ao lado do Éden. Com o passar do tempo esse Gulag vai ficando cada vez maior e mais perfeito, enquanto o paraíso ao lado vai ficando menor e mais pobre.

Depois da guerra, Paul Éluard tornou-se o maior expoente do que se poderia chamar de “poesia do totalitarismo”. Cantava em prol da fraternidade, da paz, da justiça, de um amanhã melhor, da camaradagem, em prol do júbilo e contra a tristeza, em prol da inocência e contra o pessimismo. Quando os governantes do paraíso condenaram um amigo de Éluard, o poeta Závis Kalandra, a morrer na forca, Éluard suprimiu seus sentimentos pessoais de amizade em nome dos ideais suprapessoais e declarou em público que aprovava a execução de seu camarada. O verdugo matava enquanto o poeta cantava.

E não só o poeta. Todo o período de terror estalinista foi uma época de delírio lírico coletivo. Tudo isso agora caiu no total esquecimento, mas aí está o xis do problema. As pessoas gostam de dizer: a Revolução é bela; só o terror que decorre dela que é mau. Mas isso não é verdade. O mal já está presente na beleza, o inferno já está contido no sonho do paraíso, e se queremos compreender a essência do inferno, é necessário examinar a essência do paraíso em que ele tem origem. É muito fácil condenar os Gulags, mas rejeitar a poesia totalitária que leva ao Gulag passando pelo paraíso continua sendo tão difícil quanto sempre foi. Hoje em dia, em todo o mundo as pessoas rejeitam categoricamente a idéia do Gulag, porém ainda se deixam hipnotizar pela poesia totalitária e marcham rumo a novos Gulags ao som da mesma canção lírica cantada por Éluard no tempo em que pairava sobre Praga como o grande arcanjo da lira, enquanto a fumaça do cadáver de Kalandra subia ao céu, saindo da chaminé do crematório.

(Entre Nós. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Alguns trechos foram resumidos.)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O perfeito idiota latinoamericano

Os colombianos andavam meio confusos. Gostaram muito dos dois mandatos de Uribe, ficaram felizes de recuperar o direito de viver em paz, livres do terror das Farc e dos paramilitares, mas, como é típico destes tempos ditos "modernos", tinham lá suas dúvidas se não seria o caso de mudar um pouco. Além disso, o tal Mockus é verde, e essa cor agora entrou na moda nesta América Latina em que todos parecem desejar nunca ficar maduros. Os colombianos pensavam, avaliavam, e os institutos de pesquisa falavam até em empate. E então, para provar que Deus é colombiano, o idiota do Chávez declarou que torcia pelo Mockus. Pronto: a eleição se resolveu! Santos, candidato de Uribe, teve mais que o dobro da votação do "verde". E o segundo turno só será convocado pro forma, por obrigação legal. Obrigado, Chávez! Os democratas de todos os países te saúdam!

terça-feira, 25 de maio de 2010

O deboche como categoria de pensamento

Excelente o comentário de Olavo de Carvalho sobre À Mão Esquerda, de Fausto Wolff.

O último parágrafo é magnífico:

À Mão Esquerda é o epitáfio de uma geração que se achava extraordinariamente importante, mas cuja contribuição à cultura nacional se revela cada vez mais nula à medida que os ecos das conversas nos bares de Ipanema vão se extinguindo como um sussurro distante. Da patota, como essa geração se autode-nominava, só sobrarão as obras de seus membros periféricos e honorários, Millôr Fernandes e Carlos Heitor Cony. O próprio Francis só sobrevive como personagem, não como autor. A história da intelectualidade brasileira está repleta desses episódios que, por um momento, parecem muito atraentes, mas dos quais só resta, no fim das contas, o esquecimento.

Análise irretocável. Ou quase.

De fato, não se pode afirmar que tenha sido “nula” para a cultura nacional a contribuição de uma geração que marcou por mais de uma década as principais manifestações da nossa intelligentsia. Pode-se afirmar que essa contribuição foi perniciosa, ou que a obra dessa geração ajudou o pensamento nacional a se afastar – e muito – dos padrões culturais razoavelmente aceitáveis. Mas “nula”, certamente, ela não foi.

Na verdade, a grande contribuição da “patota de Ipanema” para o Brasil foi a instituição do deboche como categoria intelectual. Convencionou-se, nalgum momento dos anos 70 do século passado, que só poderia ser cool – leia-se: intelectual verdadeiramente moderno -- quem ousasse debochar de tudo o que de certo modo encarnava o Brasil “tradicional”. Se você ia à missa, era um carola; se punha a mão no peito durante a execução do Hino Nacional, era um babaca; se sonhava em casar-se virgem, era digna de um risinho piedoso; se respeitava seus pais, era quadrado; se não fumava maconha, era careta; se usava farda, era “gorila”; se se aplicava aos estudos, era CDF. E tudo isso – ser careta, quadrado, carola ou CDF – condenava-o, entre outras coisas terríveis, a ser desprezado pelos frequentadores daquele Olimpo dourado pelo sol de Ipanema, onde os eleitos bebiam uísque escocês, confraternizavam com escritores da moda e dormiam com mulheres deslumbrantes.

Nunca se tratou de um verdadeiro embate filosófico, de uma crítica organizada do pensamento “progressista” a determinados valores “tradicionais”. Ninguém entre os "progressistas" tinha estofo para isso. E, na falta de estofo intelectual para uma crítica filosófica, optou-se pela pura e simples derrisão. Todo um catálogo de valores e comportamentos foi colocado no index da “turma de Ipanema” e impiedosamente satirizado, caricaturado, ridicularizado, até que nada restasse além de um sorriso cínico a contemplar ruínas. Criava-se o deboche como um jeito de olhar para o mundo – para o Brasil, principalmente; para o nosso passado e para o nosso futuro. Para a vida em geral.

Devido à sua mordacidade, ao terror que sua ironia provocava, a “turma de Ipanema” foi muito eficiente em banir os valores tradicionais do meio da intelligentsia nacional. Por razões que estavam muito além das suas forças, foi incapaz de colocar algo no lugar do que destruía. Da sua obra restou apenas uma estética, um jeito de abordar superficialmente os problemas, um método – que é o deboche, outra palavra para cinismo.

Não é pouca coisa. Olavo de Carvalho fez bem em lhe dedicar um réquiem. Mas ela ainda nos assombrará por muito tempo. Basta olhar para as escolas e as redações dos jornais.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ideias para tornar o povo feliz

Quando considero nossas camadas intelectuais (...), tenho em mente sua atitude para comigo e minha obra, sinto-me presa de angústia. Pois desde que me ocupo de política (...) só tive sucessos. E apesar disso a massa flutua de maneira insuportável, até repugnante. Que aconteceria se por acaso eu tivesse uma derrota? (...) Como se comportaria então todo esse galinheiro? (...) Outrora, meu grande orgulho foi ter edificado um partido que, mesmo nas épocas do reverso da fortuna, mantinha-se obstinada e fanaticamente comigo. Foi meu grande orgulho e (...) assim devemos educar nosso povo inteiro. O povo deve ser levado a ter apenas a fé mais absoluta, mais tenaz, mais naturalmente otimista: no fim conseguiremos realizar tudo o que é necessário. (...)


Para isso é indispensável que a imprensa pregue cegamente o princípio básico: o governo age como convém! (...) Assim aliviaremos o povo, digamos, de uma dúvida que o torna infeliz. A grande massa não quer se incomodar com esse peso. A grande massa só tem um desejo: estar bem dirigida e poder confiar nessa direção (...). Acreditem, sei muito bem, o povo (...) nunca esteve mais contente do que em certos dias (...) quando vou à rua cercado de todos os meus colaboradores e o povo diz: este é fulano, aquele é beltrano. E as pessoas se sentem profundamente protegidas com a idéia de que esses homens se dão as mãos, todos seguem o Führer e o Führer apóia esses homens; são nossos ídolos. Talvez jamais alguns intelectuais consigam compreender isso. Mas essa gentinha, lá fora (...) é tudo o que quer! (...) O povo está sempre feliz quando os homens que o dirigem se dão as mãos: isso ajuda as pessoas de baixo a fazer o mesmo.

Adolf Hitler, citado por Joachim Fest