quinta-feira, 9 de abril de 2009

É melhor não perguntar

Certamente para confirmar que em boca fechada não entra mosquito, o senador Cristovam Buarque sugeriu que talvez conviesse fazer um plebiscito e perguntar aos cidadãos se preferem uma democracia como a que temos ou uma ditadura pura e simples. Por teoria e prática, sou a favor das democracias, mesmo que desfiguradas, como a nossa. Mas a gritaria provocada pelo comentário do senador deixou bem claro que, em casa de enforcado, o melhor é não falar de corda. Ninguém tem a menor dúvida sobre qual seria o resultado do plebiscito.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O estado da coisa

Com a chegada do PT ao poder, reduziram-se as divisões da esquerda brasileira. Agora, definitivamente, temos apenas duas grandes correntes: a esquerda por nomeação e a esquerda por concurso.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Madonna no País dos Coitadinhos

"Madonna pode visitar um projeto social em uma favela no Rio" - informa o Estadão. E uma mulata, certamente, vai sambar para ela, antes do show de capoeira, enquanto crianças "retiradas da rua" tocarão surdos e tamborins. Somos o zoológico do Primeiro Mundo! Qualquer idiota aureolado com o título de "popstar" vem nos visitar e corremos a lhe mostrar o que temos de melhor: nossas favelas, povoadas de Ongs que fazem "trabalho social" (com dinheiro público, claro), nossas crianças famintas, nossos cidadãos sitiados e explorados pelo tráfico! Bono, Michael Jackson, até Mick Jagger, aceitaram, curiosos, conhecer essa coisa exótica, a favvelaa, típica dos países que, nas listas telefônicas do Primeiro Mundo, aparecem como "others". Agora é a vez de Madonna. Não ocorre a ninguém levá-la conhecer um Centro de Pesquisas, uma Biblioteca, uma Universidade, um conjunto arquitetônico. Não! Isso não desperta pena; não a convence a criar, talvez, uma fundação para assistir nossas crianças "em situação de rua"; não a estimula - oh!, sonho supremo! - a adotar, quem sabe, um brasileirinho (a quem ela dará o nome de uma divindade pagã com quatro letras). Nada de lhe mostrar um Brasil "normal": o que temos de típico, o que nos faz ser lembrados em todo o mundo é a favela - de preferência cheia de crianças com os olhos marejados de agradecimento àquele ser maravilhoso que se dignou descer do Olimpo para visitá-las. De um país "normal" ninguém tem pena. E nós amamos ser O País dos Coitadinhos.

Depois nos queixamos de Lula, como se ele fosse a causa de nossos males. Não é. Ele é apenas a materialização, no plano político, dos nossos hábitos mentais mais arraigados.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ensaio sobre a besteira

Confesso. Num desses momentos de ócio absoluto, com rigorosamente nada para fazer, tive meu momento Saramago e pensei em comentar as últimas declarações do presidente da República – sobre a eleição de Bobama, sobre as enchentes em Santa Catarina (“a natureza tomou de volta o que lhe pertencia”), sobre a crise econômica, etc. Mas aí, quando eu me preparava para digitar a primeira palavra, tocou o telefone: um amigo me convidava para ver a filha dele, de 8 anos, atuar numa peça de teatro infantil. Desliguei o computador e fui.
Obrigado, Senhor, por me enviar os amigos certos nas horas de maior necessidade!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O Paradoxo 1968

Nossos ideais juvenis, todos, vieram dos EUA, dos filmes de Hollywood, de Seleções, dos gibis do Capitão Marvel que trocávamos antes das matinês. Não éramos intelectuais, não líamos em Francês, não conhecíamos Heiddeger. Éramos jovens de classe-média semi-instruídos, filhos do desenvolvimentismo juscelinista e do “milagre econômico”, recém-saídos do Brasil agrário, sonhando com um mundo que nos chegava sobretudo pelo cinema e pelas revistas: um país mais rico, uma família menos opressiva, uma escola menos autoritária, relações menos dolorosas com o sexo oposto, sem a ameaça do Pecado e da Culpa a pairar sobre nossas jovens cabeças. E aí, no instante em que deixávamos a adolescência, fomos apanhados pelas águas do catolicismo anti-reformista, do anti-individualismo, do positivismo, do marxismo, do terceiromundismo – por essa mistura, enfim, de imaginário da Conquista com ideologias progressistas do século XIX, que conseguiu nos convencer do impossível: os sonhos e fantasias nascidos do nosso enamoramento pela cultura norteamericana só poderiam se realizar no “Brasil socialista”. Pior: só chegaríamos ao Brasil Socialista se cumpríssemos uma agenda cultural e política que tinha entre seus pontos destacados o combate à influência norteamericana em nossas vidas! Esse paradoxo iria nos causar, ao longo dos anos, um profundo mal-estar psíquico, que só poderíamos suprimir por dois meios: pelo abandono do projeto de "Brasil socialista” ou pelo cinismo. Daí que a “geração 68” se expresse, hoje, em três vertentes: os cínicos, muitos deles no poder, que sempre derramam uma lágrima quando se fala nos pobres de Havana, o que lhes alivia o fardo de viverem como ricos de Miami; os renunciantes, cansados da política mas no fundo anticapitalistas, geralmente imersos na construção de projetos de vida alternativos (orientalismo, esoterismo, etc.) ou transformados, como Arnaldo Jabor, em arautos do Apocalipse (“depois da minha geração, o fim do mundo que vale a pena viver”); os ex-militantes de esquerda convertidos (ou “revertidos”) ao liberalismo ou à direita, não por acaso os críticos mais duros e consistentes do petismo e do “politicamente correto”.

Saudade de 1968? Claro! Das minissaias, principalmente.

sábado, 1 de novembro de 2008

Presidente negro: a África tem vários...

Ontem, em Cuba, o presidente Lula, com sua habitual sabedoria, declarou que seria muito bom se os EUA elegessem um negro para presidente. Mais não disse. E deixou uma dúvida: dado que os negros, assim como os brancos, dividem-se em várias etnias, será que o presidente tem alguma preferência? Um hutu? Um tutsi? Um zulu? Ou um xhosa? Todos são negros. E ainda há outras, muitas outras - também constituídas por negros. Pena que o presidente não teve tempo de discorrer mais longamente sobre o assunto, que ele parece conhecer tão bem.