O pensamento politicamente correto que tomou de assalto Hollywood transformou os filmes de espionagem numa chatice insuportável. Eliminou a guerra subterrânea entre os agentes do Bem e do Mal e pôs no seu lugar dois outros conflitos, inventados pela imaginação infanto-juvenil de roteiristas que odeiam política e livros de História: 1) a batalha entre o espião idealista (jovem-íntegro-que-acredita-estar-fazendo-o-melhor-por-seu-país) e seus superiores (burocratas-sombrios-intoxicados-de-paranóia-anticomunista) e 2) o conflito entre o espião e sua esposa.
A luta silenciosa entre o agente honesto, bem-intencionado, e seus chefes malévolos, interessados em fomentar a Guerra Fria, não é tão recente no cinema americano. Mas, com o fim da URSS, tornou-se o prato favorito da esquerda festiva que borbulha em Hollywood. O modo como se deu o desaparecimento do império soviético forneceu novos argumentos aos que, no passado, confortavelmente instalados na mais rica e democrática das sociedades, excitavam-se em flertar com a barbárie. Um império que desmorona sem um tiro não pode ter representado, em qualquer época, uma ameaça real - imaginam. Daí concluem que a Guerra Fria nunca ocorreu, como decerto nunca existiram aqueles milhares de mísseis prontos para explodir os EUA e a Europa. Tudo não era mais que uma invenção da direita americana e do “complexo industrial-militar”. Logo, os políticos e agentes do governo empenhados em lutar contra a URSS não passavam, na melhor hipótese, de paranóicos e, na pior, de espertalhões que não hesitavam em destruir vidas e carreiras para garantir às empresas americanas a oportunidade de bons negocios. É contra eles que o “mocinho” do filme de espionagem moderno irá lutar. Eram eles – e não a URSS, a China, etc. – que verdadeiramente encarnavam o Mal.
A outra luta do “mocinho” se trava no front doméstico. Embora o feminismo só tenha sido incorporado à vida cotidiana dos EUA a partir dos anos 70 do século passado, como fruto da "contracultura", nos filmes recentes de espionagem todas as esposas dos agentes secretos são ferozes feministas, a despeito dos acontecimentos do filme se passarem em 1946, 1950, por aí. Além de não aceitar a divisão de trabalho tradicional que predominava então nos lares americanos (mulher devotada à casa, homem dedicado ao trabalho), essa feminista avant la lettre não admite, também, que o marido (agente secreto em plena Guerra Fria) lhe oculte algo. Ai dele se chegar tarde e não lhe der minuciosas explicações, ou se viajar a trabalho e faltar ao jogo de futebol do Junior no sábado. Não interessa à mulher se os russos acabam de bloquear Berlim: o marido tem que lhe contar, com detalhes, por que viajou às pressas para a Alemanha e não voltou a tempo para o almoço com os sogros. “Essa história de combater o comunismo é problema seu. Aqui em casa seu compromisso é comigo e com as crianças".
As mulheres dos novos filmes americanos de espionagem são, invariavelmente, estúpidas, egoístas e mimadas. Sua função, no plot, é transformar num inferno a vida dos infelizes maridos. E o pior é que, por sua vez, também estes são uns moçoilos frágeis e sentem profunda angústia por “trair a confiança” das chatíssimas esposas. Mesmo de posse do mais terrível segredo, que não deve confiar nem ao seus superiores, o agente “politicamente correto” sente-se um miserável se não puder contar a história toda, imediatamente, à mãe dos seus filhos. Ele quer “to share” tudo com ela. Mas seus chefes insensíveis e frios - homens e mulheres divorciados, solitários e infelizes - vivem a adverti-lo para que fique de boca fechada. Que sofrimento, meu Deus! Quanta incompreensão! Por isso, no fim do filme, depois de desarmar onze bombas atômicas e salvar o mundo, o agente secreto prefere abandonar o trabalho na CIA ou no FBI para viver uma vida simples e prosaica num condado rural no interior dos EUA, uma vida genuina, autêntica, que lhe permita “vivenciar” tudo, sem segredos, com os filhos e a cara-metade. E plantar alface hidropônica, se sobrar um tempo.
Só roteiristas politicamente corretos teriam uma idéia tão pueril do mundo da espionagem do século XX. Provavelmente leram, por obrigação, Conrad, Graham Greene ou Le Carré, mas resolveram “melhorá-los”. E aí está o problema: sempre que o politicamente correto resolve "aperfeiçoar" uma tradição, destrói o que ela tem de mais importante e põe no seu lugar uma paródia.
Se os espiões do Ocidente e suas mulheres tivessem de fato se comportado como mostram os recentes filmes americanos de espionagem, os russos teriam vencido a Guerra Fria em 1947, mais ou menos. E teria sido bem feito. Afinal, só assim poderíamos ver, finalmente, Susan Sarandon, ou quem sabe George Clooney, de chinelos Rider, com a caderneta de racionamento na mão, discutindo com uma mulher que tentou furar a fila do açúcar.
terça-feira, 15 de abril de 2008
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