terça-feira, 25 de maio de 2010

O deboche como categoria de pensamento

Excelente o comentário de Olavo de Carvalho sobre À Mão Esquerda, de Fausto Wolff.

O último parágrafo é magnífico:

À Mão Esquerda é o epitáfio de uma geração que se achava extraordinariamente importante, mas cuja contribuição à cultura nacional se revela cada vez mais nula à medida que os ecos das conversas nos bares de Ipanema vão se extinguindo como um sussurro distante. Da patota, como essa geração se autode-nominava, só sobrarão as obras de seus membros periféricos e honorários, Millôr Fernandes e Carlos Heitor Cony. O próprio Francis só sobrevive como personagem, não como autor. A história da intelectualidade brasileira está repleta desses episódios que, por um momento, parecem muito atraentes, mas dos quais só resta, no fim das contas, o esquecimento.

Análise irretocável. Ou quase.

De fato, não se pode afirmar que tenha sido “nula” para a cultura nacional a contribuição de uma geração que marcou por mais de uma década as principais manifestações da nossa intelligentsia. Pode-se afirmar que essa contribuição foi perniciosa, ou que a obra dessa geração ajudou o pensamento nacional a se afastar – e muito – dos padrões culturais razoavelmente aceitáveis. Mas “nula”, certamente, ela não foi.

Na verdade, a grande contribuição da “patota de Ipanema” para o Brasil foi a instituição do deboche como categoria intelectual. Convencionou-se, nalgum momento dos anos 70 do século passado, que só poderia ser cool – leia-se: intelectual verdadeiramente moderno -- quem ousasse debochar de tudo o que de certo modo encarnava o Brasil “tradicional”. Se você ia à missa, era um carola; se punha a mão no peito durante a execução do Hino Nacional, era um babaca; se sonhava em casar-se virgem, era digna de um risinho piedoso; se respeitava seus pais, era quadrado; se não fumava maconha, era careta; se usava farda, era “gorila”; se se aplicava aos estudos, era CDF. E tudo isso – ser careta, quadrado, carola ou CDF – condenava-o, entre outras coisas terríveis, a ser desprezado pelos frequentadores daquele Olimpo dourado pelo sol de Ipanema, onde os eleitos bebiam uísque escocês, confraternizavam com escritores da moda e dormiam com mulheres deslumbrantes.

Nunca se tratou de um verdadeiro embate filosófico, de uma crítica organizada do pensamento “progressista” a determinados valores “tradicionais”. Ninguém entre os "progressistas" tinha estofo para isso. E, na falta de estofo intelectual para uma crítica filosófica, optou-se pela pura e simples derrisão. Todo um catálogo de valores e comportamentos foi colocado no index da “turma de Ipanema” e impiedosamente satirizado, caricaturado, ridicularizado, até que nada restasse além de um sorriso cínico a contemplar ruínas. Criava-se o deboche como um jeito de olhar para o mundo – para o Brasil, principalmente; para o nosso passado e para o nosso futuro. Para a vida em geral.

Devido à sua mordacidade, ao terror que sua ironia provocava, a “turma de Ipanema” foi muito eficiente em banir os valores tradicionais do meio da intelligentsia nacional. Por razões que estavam muito além das suas forças, foi incapaz de colocar algo no lugar do que destruía. Da sua obra restou apenas uma estética, um jeito de abordar superficialmente os problemas, um método – que é o deboche, outra palavra para cinismo.

Não é pouca coisa. Olavo de Carvalho fez bem em lhe dedicar um réquiem. Mas ela ainda nos assombrará por muito tempo. Basta olhar para as escolas e as redações dos jornais.

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