"Madonna pode visitar um projeto social em uma favela no Rio" - informa o Estadão. E uma mulata, certamente, vai sambar para ela, antes do show de capoeira, enquanto crianças "retiradas da rua" tocarão surdos e tamborins. Somos o zoológico do Primeiro Mundo! Qualquer idiota aureolado com o título de "popstar" vem nos visitar e corremos a lhe mostrar o que temos de melhor: nossas favelas, povoadas de Ongs que fazem "trabalho social" (com dinheiro público, claro), nossas crianças famintas, nossos cidadãos sitiados e explorados pelo tráfico! Bono, Michael Jackson, até Mick Jagger, aceitaram, curiosos, conhecer essa coisa exótica, a favvelaa, típica dos países que, nas listas telefônicas do Primeiro Mundo, aparecem como "others". Agora é a vez de Madonna. Não ocorre a ninguém levá-la conhecer um Centro de Pesquisas, uma Biblioteca, uma Universidade, um conjunto arquitetônico. Não! Isso não desperta pena; não a convence a criar, talvez, uma fundação para assistir nossas crianças "em situação de rua"; não a estimula - oh!, sonho supremo! - a adotar, quem sabe, um brasileirinho (a quem ela dará o nome de uma divindade pagã com quatro letras). Nada de lhe mostrar um Brasil "normal": o que temos de típico, o que nos faz ser lembrados em todo o mundo é a favela - de preferência cheia de crianças com os olhos marejados de agradecimento àquele ser maravilhoso que se dignou descer do Olimpo para visitá-las. De um país "normal" ninguém tem pena. E nós amamos ser O País dos Coitadinhos.
Depois nos queixamos de Lula, como se ele fosse a causa de nossos males. Não é. Ele é apenas a materialização, no plano político, dos nossos hábitos mentais mais arraigados.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Ensaio sobre a besteira
Confesso. Num desses momentos de ócio absoluto, com rigorosamente nada para fazer, tive meu momento Saramago e pensei em comentar as últimas declarações do presidente da República – sobre a eleição de Bobama, sobre as enchentes em Santa Catarina (“a natureza tomou de volta o que lhe pertencia”), sobre a crise econômica, etc. Mas aí, quando eu me preparava para digitar a primeira palavra, tocou o telefone: um amigo me convidava para ver a filha dele, de 8 anos, atuar numa peça de teatro infantil. Desliguei o computador e fui.
Obrigado, Senhor, por me enviar os amigos certos nas horas de maior necessidade!
Obrigado, Senhor, por me enviar os amigos certos nas horas de maior necessidade!
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terça-feira, 25 de novembro de 2008
O Paradoxo 1968
Nossos ideais juvenis, todos, vieram dos EUA, dos filmes de Hollywood, de Seleções, dos gibis do Capitão Marvel que trocávamos antes das matinês. Não éramos intelectuais, não líamos em Francês, não conhecíamos Heiddeger. Éramos jovens de classe-média semi-instruídos, filhos do desenvolvimentismo juscelinista e do “milagre econômico”, recém-saídos do Brasil agrário, sonhando com um mundo que nos chegava sobretudo pelo cinema e pelas revistas: um país mais rico, uma família menos opressiva, uma escola menos autoritária, relações menos dolorosas com o sexo oposto, sem a ameaça do Pecado e da Culpa a pairar sobre nossas jovens cabeças. E aí, no instante em que deixávamos a adolescência, fomos apanhados pelas águas do catolicismo anti-reformista, do anti-individualismo, do positivismo, do marxismo, do terceiromundismo – por essa mistura, enfim, de imaginário da Conquista com ideologias progressistas do século XIX, que conseguiu nos convencer do impossível: os sonhos e fantasias nascidos do nosso enamoramento pela cultura norteamericana só poderiam se realizar no “Brasil socialista”. Pior: só chegaríamos ao Brasil Socialista se cumpríssemos uma agenda cultural e política que tinha entre seus pontos destacados o combate à influência norteamericana em nossas vidas! Esse paradoxo iria nos causar, ao longo dos anos, um profundo mal-estar psíquico, que só poderíamos suprimir por dois meios: pelo abandono do projeto de "Brasil socialista” ou pelo cinismo. Daí que a “geração 68” se expresse, hoje, em três vertentes: os cínicos, muitos deles no poder, que sempre derramam uma lágrima quando se fala nos pobres de Havana, o que lhes alivia o fardo de viverem como ricos de Miami; os renunciantes, cansados da política mas no fundo anticapitalistas, geralmente imersos na construção de projetos de vida alternativos (orientalismo, esoterismo, etc.) ou transformados, como Arnaldo Jabor, em arautos do Apocalipse (“depois da minha geração, o fim do mundo que vale a pena viver”); os ex-militantes de esquerda convertidos (ou “revertidos”) ao liberalismo ou à direita, não por acaso os críticos mais duros e consistentes do petismo e do “politicamente correto”.
Saudade de 1968? Claro! Das minissaias, principalmente.
Saudade de 1968? Claro! Das minissaias, principalmente.
sábado, 1 de novembro de 2008
Presidente negro: a África tem vários...
Ontem, em Cuba, o presidente Lula, com sua habitual sabedoria, declarou que seria muito bom se os EUA elegessem um negro para presidente. Mais não disse. E deixou uma dúvida: dado que os negros, assim como os brancos, dividem-se em várias etnias, será que o presidente tem alguma preferência? Um hutu? Um tutsi? Um zulu? Ou um xhosa? Todos são negros. E ainda há outras, muitas outras - também constituídas por negros. Pena que o presidente não teve tempo de discorrer mais longamente sobre o assunto, que ele parece conhecer tão bem.
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008
A dialética da greve
Quando os bisavós dos petistas, os bolcheviques, estavam na oposição ou na clandestinidade, não só eram a favor de todas as greves como as estimulavam sempre que podiam. A greve, diziam, era um direito do trabalhador, além de possuir, supostamente, a virtude de fortalecer o movimento operário e enfraquecer o capitalismo. Só um governo bárbaro, inimigo da civilização democrática, seria contra o direito de greve, escrevia Lênin. Lindas palavras.
Tão logo conquistaram o poder, os bolcheviques proibiram as greves. Explica-se: como Lênin e seus camaradas e-vi-den-te-men-te encarnavam os interesses históricos do proletariado (assim como, mais tarde, Fidel, Kim Jong-Il, Pol Pot e outros), organizar uma greve contra o governo bolchevique equivalia a colocar-se ao lado do capital, contra o trabalho. Logo, se ousavam erguer a cabeça contra um governo do povo, os grevistas mereciam ser tratados como bandidos. E assim se fez. Você já leu sobre alguma greve na União Soviética? Em Cuba? Pesquise...
É por isso, leitor, que todos, rigorosamente todos os sindicatos que, durante governos do PMDB ou do PSDB, puxam greves pelo menos uma vez por ano, exigindo sempre, na pauta de negociações, o pagamento dos dias parados – o dos professores é o caso mais típico -, praticamente somem da vida pública assim que a prefeitura ou governo do Estado cai nas mãos do PT. Não porque os salários melhorem. É que, além de dar aos dirigentes sindicais amigos um bom emprego, os governos do PT tratam seus grevistas com mão de ferro – como ficou evidente, agora, no caso da EBC. Com os representantes do progresso social e do futuro da humanidade não tem essa de negociar com braços cruzados ou pagar os dias parados: essa é uma fraqueza dos "neoliberais". Contra os que desafiam os representantes do povo, heróis do bolsa-família, deve-se ter a mão dura: demissões, processos, corte dos vencimentos, etc. Em suma, a boa e velha repressão “burguesa".
A isso, leitor, chama-se “dialética”.
Tão logo conquistaram o poder, os bolcheviques proibiram as greves. Explica-se: como Lênin e seus camaradas e-vi-den-te-men-te encarnavam os interesses históricos do proletariado (assim como, mais tarde, Fidel, Kim Jong-Il, Pol Pot e outros), organizar uma greve contra o governo bolchevique equivalia a colocar-se ao lado do capital, contra o trabalho. Logo, se ousavam erguer a cabeça contra um governo do povo, os grevistas mereciam ser tratados como bandidos. E assim se fez. Você já leu sobre alguma greve na União Soviética? Em Cuba? Pesquise...
É por isso, leitor, que todos, rigorosamente todos os sindicatos que, durante governos do PMDB ou do PSDB, puxam greves pelo menos uma vez por ano, exigindo sempre, na pauta de negociações, o pagamento dos dias parados – o dos professores é o caso mais típico -, praticamente somem da vida pública assim que a prefeitura ou governo do Estado cai nas mãos do PT. Não porque os salários melhorem. É que, além de dar aos dirigentes sindicais amigos um bom emprego, os governos do PT tratam seus grevistas com mão de ferro – como ficou evidente, agora, no caso da EBC. Com os representantes do progresso social e do futuro da humanidade não tem essa de negociar com braços cruzados ou pagar os dias parados: essa é uma fraqueza dos "neoliberais". Contra os que desafiam os representantes do povo, heróis do bolsa-família, deve-se ter a mão dura: demissões, processos, corte dos vencimentos, etc. Em suma, a boa e velha repressão “burguesa".
A isso, leitor, chama-se “dialética”.
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domingo, 19 de outubro de 2008
Herança Maldita
Estive em Belo Horizonte. Às vésperas da eleição municipal, a esquerda está desesperada, não apenas porque vai perder a administração da cidade para um certo Leonardo Quintão, mas, principalmente, porque centenas de militantes profissionais vão perder seus empregos na prefeitura, inúmeros contratos vão ser cancelados, dezenas de ONGs vão ficar sem seus meios de financiamento, etc. etc. O tal Leonardo Quintão representa, para a esquerda, tudo o que existe de ruim no mundo: "inculto", "demagogo", "corrupto", "evangélico" (para a esquerda, herdeira das Luzes, ser evangélico é crime, a não ser que o candidato seja do PT e se chame, digamos, Benedita da Silva...). Não que a esquerda não apóie, regularmente, alguém com várias dessas características - é só ela olhar um pouquinho para cima. O problema, muito mais grave, é que a esquerda administra Belo Horizonte há quase uma geração - dezesseis anos! E isso nos leva à pergunta inevitável: quem é o responsável pela situação atual? O PMDB? O PSDB e o "neoliberalismo"? Por que a esquerda não conseguiu, em dezesseis anos, educar minimamente a população, vaciná-la contra a demagogia, contra a mentira transformada em método, contra o populismo rasteiro que gosta de contrapor "o povão" às "elites"? Não conseguiu porque esse é, há décadas, o discurso do lulo-petismo: a defesa da incultura (que seria "popular") contra a cultura (que seria "burguesa"); a agressão verbal como estilo de discussão política; o rigor contra os "inimigos" e a leniência com os amigos; o coitadismo que transforma todo pobre em não-cidadão, uma vez que a ele nada se pode pedir, nem mesmo que ajude a manter sua cidade limpa. Dezesseis anos dessa política teriam que produzir algum fruto. Produziram. E a criança tem a cara dos pais.
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quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Ciência de quê mesmo?
Alguma utilidade terá a atual crise financeira mundial. Se o mundo não sair dela mais cauteloso, menos propenso às aventuras especulativas, uma lição, pelo menos, terá aprendido: os economistas não sabem, hoje à noite, rigorosamente nada do que irá acontecer amanhã cedo à economia. A tal “ciência econômica” – como, aliás, as “ciências sociais” em geral – é, sem dúvida, capaz de explicar nos mínimos detalhes o já acontecido. Quanto ao que vai acontecer, encontra-se no mesmo estágio dos nossos ancestrais gregos, que tentavam decifrar o futuro nos presságios e nas vísceras dos pássaros.
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008
E o coitadismo, não merece uma medalha? Pode ser de bronze...
Não estou gostando dessas Olimpíadas. Só dão medalha pra quem chega na frente, salta mais alto, bate mais forte, faz mais gols... Nem uma medalhinha pra quem “sofreu muito para chegar aqui”? Ou para “o povo brasileiro, que merece tanto essa alegria”? Ou para “a minha mãe, que está lá em casa torcendo por mim”? Se as Olimpíadas continuarem a se guiar por essa visão, digamos, neoliberal, que só premia os números frios, as medalhas vão ficar todas com os chineses, americanos, alemães, russos, suecos... Não vai ter premiação “com conteúdo social”? Não vão levar em conta nossos "quinhentos anos de exclusão"? Não é justo!
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O País do "Pelo Menos"
Diplomata do Vietnã é sequestrado por bando armado no Rio de Janeiro. Depois de alguns dias, escapa dos bandidos, ileso. Prender os bandidos? Impossível! Mas... "pelo menos, ele não foi ferido", comenta um policial.
Teatro Cultura Artística, em São Paulo, é destruído pelo fogo. Quem são os responsáveis pela preservação do teatro? Ninguém sabe. Mas... "pelo menos salvou-se o mural do Di Cavalcanti", consola-se um frequentador do teatro. "Pelo menos, não houve feridos", observa um outro.
Todo dia é a mesma rotina. Diante da barbárie, o mesmo comentário tolo-otimista destinado a disfarçar a impotência: "Bem, pelo menos...".
Ficamos assim, então: o Brasil está sendo destruído, mas, pelo menos, é só um pouquinho de cada vez...
Teatro Cultura Artística, em São Paulo, é destruído pelo fogo. Quem são os responsáveis pela preservação do teatro? Ninguém sabe. Mas... "pelo menos salvou-se o mural do Di Cavalcanti", consola-se um frequentador do teatro. "Pelo menos, não houve feridos", observa um outro.
Todo dia é a mesma rotina. Diante da barbárie, o mesmo comentário tolo-otimista destinado a disfarçar a impotência: "Bem, pelo menos...".
Ficamos assim, então: o Brasil está sendo destruído, mas, pelo menos, é só um pouquinho de cada vez...
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Marx no Brasil de Hoje
Décima-Segunda Tese sobre Beckenbauer:
"Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de várias maneiras. Trata-se de transformá-lo em oportunidades de bons negócios para os companheiros".
"Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de várias maneiras. Trata-se de transformá-lo em oportunidades de bons negócios para os companheiros".
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Marxismo; Patrimonialismo; Os Donos do Poder
segunda-feira, 9 de junho de 2008
E os heróis serão transformados em inimigos.
Segundo O Estado de S. Paulo, o Museu da FEB, que registra a participação do Brasil na II Guerra Mundial, vai fechar por falta de recursos. "A associação que mantinha o museu, biblioteca e assistência jurídica aos veteranos e suas famílias também encerra as atividades". Com isso, o acervo do museu, constituído por documentos, uniformes, armas e equipamentos, corre o risco de desaparecer. (O que se gastou na ridícula farda camuflada do ministro Nelson Jobim daria para pagar as contas do museu por mais alguns meses.)
Pois é, dirá o cidadão bem-intencionado, o Brasil não zela por seu passado. Que pena! Infelizmente, não é verdade. O Brasil não cultiva um certo passado. O esquerdismo dominante no governo e em grande parte da imprensa não celebra, por exemplo, a participação dos brasileiros na II Guerra Mundial porque esta foi, para nosso orgulho, uma guerra em que lutamos do lado certo: contra o totalitarismo, junto com os EUA e a Inglaterra, chefiados por oficiais do mais alto valor, alguns dos quais - a começar por Humberto Castello Branco - viriam a liderar, vinte anos mais tarde, o golpe militar de 1964.
As guerras que o lulo-petismo gosta de comemorar são outras. Dizem respeito à permanente reconstrução de sua mitologia: episódios de "resistência à ditadura militar", as greves do ABC, o "massacre de Eldorado de Carajás", o assassinato de Chico Mendes e Dorothy Stang (irão incluir Celso Daniel nessa galeria?), além da revolução cubana, o dia da Consciência Negra, etc. etc. É toda uma Folhinha Mariana de esquerda, feita de meias-verdades e abundante imaginação, com seus mártires, dias santos, cânticos e celebrações. É a Folhinha Luliana. A "outra" História, que diz respeito à vida e ao bem-estar de milhões de brasileiros comuns, que não estão no governo nem gravitam em torno do PT, essa não interessa. Os escravos intelectuais do petismo só se interessam por ela para "desconstruí-la".
No ritmo em que progridem a culpa e o sofrimento moral de uma certa casta ultraprivilegiada dos EUA (localizada sobretudo em Hollywood e nas universidades de elite), breve teremos livros e filmes a nos provar que, na II Guerra Mundial, os americanos foram tão cruéis quanto os nazistas. E, passado um tempo, depois que esta primeira aberração tiver sido assimilada pela "opinião esclarecida", outros livros e filmes (calorosamente acolhidos nos cadernos de cultura dos grandes jornais brasileiros) tentarão nos convencer de que, dadas as circunstâncias, o contexto, a história, etc., os verdadeiros bandidos daquela guerra não foram os nazistas, mas Roosevelt e Churchill.
O lulo-petismo espera ansioso que cheguem esses sinais lá de cima, para que possa, em seguida, aplicar essas novas teses à nossa própria história. Nesse dia, quem tiver um pracinha na família, quem for neto ou bisneto de um soldado brasileiro que lutou na Itália contra a barbárie nazista, deverá sentir vergonha do próprio sobrenome. Nossos pobres heróis, há muito abandonados e esquecidos, serão também transformados, nesse dia, em "inimigos do povo". E a obra de desconstrução da “história oficial” poderá exibir, enfim, mais uma de suas conquistas gloriosas.
Pois é, dirá o cidadão bem-intencionado, o Brasil não zela por seu passado. Que pena! Infelizmente, não é verdade. O Brasil não cultiva um certo passado. O esquerdismo dominante no governo e em grande parte da imprensa não celebra, por exemplo, a participação dos brasileiros na II Guerra Mundial porque esta foi, para nosso orgulho, uma guerra em que lutamos do lado certo: contra o totalitarismo, junto com os EUA e a Inglaterra, chefiados por oficiais do mais alto valor, alguns dos quais - a começar por Humberto Castello Branco - viriam a liderar, vinte anos mais tarde, o golpe militar de 1964.
As guerras que o lulo-petismo gosta de comemorar são outras. Dizem respeito à permanente reconstrução de sua mitologia: episódios de "resistência à ditadura militar", as greves do ABC, o "massacre de Eldorado de Carajás", o assassinato de Chico Mendes e Dorothy Stang (irão incluir Celso Daniel nessa galeria?), além da revolução cubana, o dia da Consciência Negra, etc. etc. É toda uma Folhinha Mariana de esquerda, feita de meias-verdades e abundante imaginação, com seus mártires, dias santos, cânticos e celebrações. É a Folhinha Luliana. A "outra" História, que diz respeito à vida e ao bem-estar de milhões de brasileiros comuns, que não estão no governo nem gravitam em torno do PT, essa não interessa. Os escravos intelectuais do petismo só se interessam por ela para "desconstruí-la".
No ritmo em que progridem a culpa e o sofrimento moral de uma certa casta ultraprivilegiada dos EUA (localizada sobretudo em Hollywood e nas universidades de elite), breve teremos livros e filmes a nos provar que, na II Guerra Mundial, os americanos foram tão cruéis quanto os nazistas. E, passado um tempo, depois que esta primeira aberração tiver sido assimilada pela "opinião esclarecida", outros livros e filmes (calorosamente acolhidos nos cadernos de cultura dos grandes jornais brasileiros) tentarão nos convencer de que, dadas as circunstâncias, o contexto, a história, etc., os verdadeiros bandidos daquela guerra não foram os nazistas, mas Roosevelt e Churchill.
O lulo-petismo espera ansioso que cheguem esses sinais lá de cima, para que possa, em seguida, aplicar essas novas teses à nossa própria história. Nesse dia, quem tiver um pracinha na família, quem for neto ou bisneto de um soldado brasileiro que lutou na Itália contra a barbárie nazista, deverá sentir vergonha do próprio sobrenome. Nossos pobres heróis, há muito abandonados e esquecidos, serão também transformados, nesse dia, em "inimigos do povo". E a obra de desconstrução da “história oficial” poderá exibir, enfim, mais uma de suas conquistas gloriosas.
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quinta-feira, 5 de junho de 2008
Ética da máfia
Há dias um funcionário da Câmara foi à CPI dos Cartões explicar aos deputados como tivera conhecimento do dossiê preparado pelo governo Lula contra seus adversários políticos. A certa altura, uma deputada petista, inconformada com o fato de ele ter passado a um superior as informações que recebera, passou a chamá-lo de dedo duro. Ninguém se lembrou de advertir a deputada de que, numa democracia, essa expressão é de uso exclusivo de criminosos.
De fato, criminosos não denunciam uns aos outros. Estão ligados por um pacto - contra o governo, a polícia, contra todos os responsáveis pelo cumprimento da lei. Nessas circunstâncias, aquele que denuncia um crime alia-se ao inimigo (a lei, a autoridade) contra os amigos (os demais criminosos). Por trair os camaradas de contravenção será execrado como dedo duro.
Essa, porém, não é a situação do cidadão que vive de acordo com a lei. O cidadão honesto, se testemunha um crime, pode e deve denunciá-lo. Seu pacto é com a lei, não com o criminoso. Ao procurar um policial e informar o que sabe, ele não está traindo nenhum companheiro, porque sua lealdade, no caso, não é devida a quem cometeu o crime, mas aos homens de bem.
Ao atacar um servidor público que honestamente cumpriu seu dever, a deputada petista revelou não compreender que existem diferentes éticas, e que homens de bem não vivem segundo as regras dos mafiosos. Pensando bem, o excepcional seria se a deputada, sendo petista, revelasse o contrário.
De fato, criminosos não denunciam uns aos outros. Estão ligados por um pacto - contra o governo, a polícia, contra todos os responsáveis pelo cumprimento da lei. Nessas circunstâncias, aquele que denuncia um crime alia-se ao inimigo (a lei, a autoridade) contra os amigos (os demais criminosos). Por trair os camaradas de contravenção será execrado como dedo duro.
Essa, porém, não é a situação do cidadão que vive de acordo com a lei. O cidadão honesto, se testemunha um crime, pode e deve denunciá-lo. Seu pacto é com a lei, não com o criminoso. Ao procurar um policial e informar o que sabe, ele não está traindo nenhum companheiro, porque sua lealdade, no caso, não é devida a quem cometeu o crime, mas aos homens de bem.
Ao atacar um servidor público que honestamente cumpriu seu dever, a deputada petista revelou não compreender que existem diferentes éticas, e que homens de bem não vivem segundo as regras dos mafiosos. Pensando bem, o excepcional seria se a deputada, sendo petista, revelasse o contrário.
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terça-feira, 27 de maio de 2008
Modelo de barbárie
O sonho do atual governo, de boa parte dos empresários e de inúmeros intelectuais "progressistas" parece ser o modelo chinês: governo forte e com elevada capacidade de planejamento, investimento estatal maciço e mão-de-obra disciplinada. Assim, talvez, o Brasil poderia se tornar uma potência líder na América Latina e, quem sabe, como fantasiam os ressentidos de esquerda e de direita, contrapor-se à influência norteamericana nesta região do globo.
Bem, esse modelo nos já tivemos: de 1964 a 1985. Comparado ao chinês, foi benigno, pois, além de matar uma fração mínima do que mataram Mao Tse-Tung e seus asseclas, interferiu pouquíssimo na vida privada dos cidadãos, jamais tentou restringir sua liberdade de trabalho nem pretendeu estabelecer, por exemplo, quantos filhos um casal poderia ter. Pelo contrário: o "milagre brasileiro" coexistiu com intensos deslocamentos da população através do País e uma profunda transformação do padrão demográfico existente. Milhões de brasileiros deixaram os "grotões" e vieram livremente para as capitais, à procura de empregos, educação e saúde. Os filhos do "milagre" encontram-se hoje no comando de todas as áreas de atividade no Brasil; sua descendência mais ilustre ocupa há seis anos a presidência da República.
O terremoto que golpeou a China revelou mais uma vez as feições bárbaras do modelo chinês; no caso, as consequências da criminosa política do filho único aplicada pelo Partido Comunista. O desprezo dos burocratas pelos cidadãos chega ao ponto de considerar que estes, mesmo dispondo de métodos anticoncepcionais e informações, devem ser proibidos de decidir quantos filhos querem ter. O Partido decide: um filho por casal. Depois, quando um terremoto mata milhares dessas crianças, o Partido, benevolente, autoriza os pais a terem novos filhos. E os pais devem agradecer-lhe.
O modelo chinês, muito mais cruel do que qualquer ditadura que tivemos a infelicidade de conhecer, é apenas a barbárie em roupas de seda (falsa, provavelmente). Que ele seja objeto de admiração tanto da esquerda quanto de inúmeros empresários de direita, é só mais um indicador do estado de miséria intelectual em que vivemos.
Bem, esse modelo nos já tivemos: de 1964 a 1985. Comparado ao chinês, foi benigno, pois, além de matar uma fração mínima do que mataram Mao Tse-Tung e seus asseclas, interferiu pouquíssimo na vida privada dos cidadãos, jamais tentou restringir sua liberdade de trabalho nem pretendeu estabelecer, por exemplo, quantos filhos um casal poderia ter. Pelo contrário: o "milagre brasileiro" coexistiu com intensos deslocamentos da população através do País e uma profunda transformação do padrão demográfico existente. Milhões de brasileiros deixaram os "grotões" e vieram livremente para as capitais, à procura de empregos, educação e saúde. Os filhos do "milagre" encontram-se hoje no comando de todas as áreas de atividade no Brasil; sua descendência mais ilustre ocupa há seis anos a presidência da República.
O terremoto que golpeou a China revelou mais uma vez as feições bárbaras do modelo chinês; no caso, as consequências da criminosa política do filho único aplicada pelo Partido Comunista. O desprezo dos burocratas pelos cidadãos chega ao ponto de considerar que estes, mesmo dispondo de métodos anticoncepcionais e informações, devem ser proibidos de decidir quantos filhos querem ter. O Partido decide: um filho por casal. Depois, quando um terremoto mata milhares dessas crianças, o Partido, benevolente, autoriza os pais a terem novos filhos. E os pais devem agradecer-lhe.
O modelo chinês, muito mais cruel do que qualquer ditadura que tivemos a infelicidade de conhecer, é apenas a barbárie em roupas de seda (falsa, provavelmente). Que ele seja objeto de admiração tanto da esquerda quanto de inúmeros empresários de direita, é só mais um indicador do estado de miséria intelectual em que vivemos.
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sexta-feira, 9 de maio de 2008
Nós não somos da turma deles
Anteontem, no Senado, a ministra Dilma Rousseff explicou, para quem ainda não havia entendido, o princípio que orienta as relações do lulo-petismo com a verdade. Referindo-se aos interrogatórios a que foi submetida quando presa, explicou: "Qualquer pessoa que dissesse a verdade aos seus interrogadores colocaria em risco a vida dos seus iguais". É certo. Na guerra, os que não estão do meu lado não são meus iguais. Não tenho por que lhes contar a verdade.
Depois de conhecer a concepção da ministra sobre a guerra, pena que nenhum senador tenha tido a curiosidade de explorar suas idéias sobre a política. Se tivesse, e a ministra respondesse com franqueza, saberia que o lulo-petismo, do qual a ministra é militante disciplinada, não concebe a política como uma disputa entre iguais, circunstancialmente separados em facções, guiada pelo princípio de que todas as forças em jogo estão imbuídas de boa fé, defendem interesses legítimos e devem ter, por isso, iguais oportunidades de governar e pôr suas idéias em prática. O lulo-petismo, como pudemos ver nos últimos quase trinta anos, imagina a política como guerra, em que toda a verdade está de um lado (adivinhe qual...) e todo o erro, de outro. Por isso os petistas, quando surpreendidos a atropelar a lei, mentem com naturalidade "nunca antes vista neste país": como soldados numa guerra, sabem que só devem lealdade aos seus iguais. Diante dos outros, dos inimigos, sabem que é sua obrigação ocultar a verdade.
Para os que acreditam que os petistas mentem porque lhes falta "ética", a ministra, com seu exemplo de renúncia e sacrifício, deixou claro: ética eles têm; só não é a nossa. Lênin (A Ditadura do Proletariado e o Renegado Kautsky) e Trotsky escreveram com espantosa crueza sobre o assunto. O livro de Trotsky, muito sugestivamente, se chama A Nossa Moral e a Deles. Transpostas as coisas para o Brasil atual, nós, os que não avalizamos o petismo, somos os tais "eles". É simples assim. Tão simples - e brutal - que a maioria prefere continuar fingindo que não entendeu.
Depois de conhecer a concepção da ministra sobre a guerra, pena que nenhum senador tenha tido a curiosidade de explorar suas idéias sobre a política. Se tivesse, e a ministra respondesse com franqueza, saberia que o lulo-petismo, do qual a ministra é militante disciplinada, não concebe a política como uma disputa entre iguais, circunstancialmente separados em facções, guiada pelo princípio de que todas as forças em jogo estão imbuídas de boa fé, defendem interesses legítimos e devem ter, por isso, iguais oportunidades de governar e pôr suas idéias em prática. O lulo-petismo, como pudemos ver nos últimos quase trinta anos, imagina a política como guerra, em que toda a verdade está de um lado (adivinhe qual...) e todo o erro, de outro. Por isso os petistas, quando surpreendidos a atropelar a lei, mentem com naturalidade "nunca antes vista neste país": como soldados numa guerra, sabem que só devem lealdade aos seus iguais. Diante dos outros, dos inimigos, sabem que é sua obrigação ocultar a verdade.
Para os que acreditam que os petistas mentem porque lhes falta "ética", a ministra, com seu exemplo de renúncia e sacrifício, deixou claro: ética eles têm; só não é a nossa. Lênin (A Ditadura do Proletariado e o Renegado Kautsky) e Trotsky escreveram com espantosa crueza sobre o assunto. O livro de Trotsky, muito sugestivamente, se chama A Nossa Moral e a Deles. Transpostas as coisas para o Brasil atual, nós, os que não avalizamos o petismo, somos os tais "eles". É simples assim. Tão simples - e brutal - que a maioria prefere continuar fingindo que não entendeu.
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Petismo. Política como guerra. Carl Schmitt
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Coronelismo, emprego e voto
A Executiva do Diretório Nacional do PT proibiu a coligação entre o PT e o PSDB nas próximas eleições municipais de Belo Horizonte. Desautorizou Fernando Pimentel e deixou claro que Aécio é inimigo.
A imprensa se alvoroça, como se estivéssemos diante de um grande acontecimento político. Entretanto, a explicação para essa briga já foi dada há tempos por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. O diretório municipal é "gente de seu Fernando Pimentel". A executiva nacional é "gente de seu Luís Inácio". Os primeiros estão empregados na prefeitura de Belo Horizonte; os outros, no governo federal.
É uma luta baseada em sólidas convicções ideológicas e arraigados princípios filosóficos.
A imprensa se alvoroça, como se estivéssemos diante de um grande acontecimento político. Entretanto, a explicação para essa briga já foi dada há tempos por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. O diretório municipal é "gente de seu Fernando Pimentel". A executiva nacional é "gente de seu Luís Inácio". Os primeiros estão empregados na prefeitura de Belo Horizonte; os outros, no governo federal.
É uma luta baseada em sólidas convicções ideológicas e arraigados princípios filosóficos.
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domingo, 20 de abril de 2008
Isto aqui... ô ô
O Brasil deve ser o único país da Terra em que se educa "para a cidadania", como se o amor pela República e pelas instituições democráticas pudesse ser preservado e desenvolvido no interior das escolas no mesmo instante em que é banido no resto da sociedade. Nos países civilizados, onde ainda se pode encontrar o que alguns sociólogos chamam de cultura cívica, o Legislativo legisla, o Judiciário julga, o Executivo executa e... as escolas ensinam, simplesmente. Não é preciso mais. Deve ser por isso que os alunos deles lêem, escrevem e fazem contas melhor que os nossos.
O Brasil deve ser, também, o único país do mundo que possui populares, como se lê todos os dias nos jornais: "Centenas de populares se reuniram próximo ao local do crime tentando linchar os criminosos".
Os populares são, certamente, gente que nunca recebeu a tal educação para a cidadania.
O mundo tem lógica.
O Brasil deve ser, também, o único país do mundo que possui populares, como se lê todos os dias nos jornais: "Centenas de populares se reuniram próximo ao local do crime tentando linchar os criminosos".
Os populares são, certamente, gente que nunca recebeu a tal educação para a cidadania.
O mundo tem lógica.
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terça-feira, 15 de abril de 2008
O espião que veio do psicanalista
O pensamento politicamente correto que tomou de assalto Hollywood transformou os filmes de espionagem numa chatice insuportável. Eliminou a guerra subterrânea entre os agentes do Bem e do Mal e pôs no seu lugar dois outros conflitos, inventados pela imaginação infanto-juvenil de roteiristas que odeiam política e livros de História: 1) a batalha entre o espião idealista (jovem-íntegro-que-acredita-estar-fazendo-o-melhor-por-seu-país) e seus superiores (burocratas-sombrios-intoxicados-de-paranóia-anticomunista) e 2) o conflito entre o espião e sua esposa.
A luta silenciosa entre o agente honesto, bem-intencionado, e seus chefes malévolos, interessados em fomentar a Guerra Fria, não é tão recente no cinema americano. Mas, com o fim da URSS, tornou-se o prato favorito da esquerda festiva que borbulha em Hollywood. O modo como se deu o desaparecimento do império soviético forneceu novos argumentos aos que, no passado, confortavelmente instalados na mais rica e democrática das sociedades, excitavam-se em flertar com a barbárie. Um império que desmorona sem um tiro não pode ter representado, em qualquer época, uma ameaça real - imaginam. Daí concluem que a Guerra Fria nunca ocorreu, como decerto nunca existiram aqueles milhares de mísseis prontos para explodir os EUA e a Europa. Tudo não era mais que uma invenção da direita americana e do “complexo industrial-militar”. Logo, os políticos e agentes do governo empenhados em lutar contra a URSS não passavam, na melhor hipótese, de paranóicos e, na pior, de espertalhões que não hesitavam em destruir vidas e carreiras para garantir às empresas americanas a oportunidade de bons negocios. É contra eles que o “mocinho” do filme de espionagem moderno irá lutar. Eram eles – e não a URSS, a China, etc. – que verdadeiramente encarnavam o Mal.
A outra luta do “mocinho” se trava no front doméstico. Embora o feminismo só tenha sido incorporado à vida cotidiana dos EUA a partir dos anos 70 do século passado, como fruto da "contracultura", nos filmes recentes de espionagem todas as esposas dos agentes secretos são ferozes feministas, a despeito dos acontecimentos do filme se passarem em 1946, 1950, por aí. Além de não aceitar a divisão de trabalho tradicional que predominava então nos lares americanos (mulher devotada à casa, homem dedicado ao trabalho), essa feminista avant la lettre não admite, também, que o marido (agente secreto em plena Guerra Fria) lhe oculte algo. Ai dele se chegar tarde e não lhe der minuciosas explicações, ou se viajar a trabalho e faltar ao jogo de futebol do Junior no sábado. Não interessa à mulher se os russos acabam de bloquear Berlim: o marido tem que lhe contar, com detalhes, por que viajou às pressas para a Alemanha e não voltou a tempo para o almoço com os sogros. “Essa história de combater o comunismo é problema seu. Aqui em casa seu compromisso é comigo e com as crianças".
As mulheres dos novos filmes americanos de espionagem são, invariavelmente, estúpidas, egoístas e mimadas. Sua função, no plot, é transformar num inferno a vida dos infelizes maridos. E o pior é que, por sua vez, também estes são uns moçoilos frágeis e sentem profunda angústia por “trair a confiança” das chatíssimas esposas. Mesmo de posse do mais terrível segredo, que não deve confiar nem ao seus superiores, o agente “politicamente correto” sente-se um miserável se não puder contar a história toda, imediatamente, à mãe dos seus filhos. Ele quer “to share” tudo com ela. Mas seus chefes insensíveis e frios - homens e mulheres divorciados, solitários e infelizes - vivem a adverti-lo para que fique de boca fechada. Que sofrimento, meu Deus! Quanta incompreensão! Por isso, no fim do filme, depois de desarmar onze bombas atômicas e salvar o mundo, o agente secreto prefere abandonar o trabalho na CIA ou no FBI para viver uma vida simples e prosaica num condado rural no interior dos EUA, uma vida genuina, autêntica, que lhe permita “vivenciar” tudo, sem segredos, com os filhos e a cara-metade. E plantar alface hidropônica, se sobrar um tempo.
Só roteiristas politicamente corretos teriam uma idéia tão pueril do mundo da espionagem do século XX. Provavelmente leram, por obrigação, Conrad, Graham Greene ou Le Carré, mas resolveram “melhorá-los”. E aí está o problema: sempre que o politicamente correto resolve "aperfeiçoar" uma tradição, destrói o que ela tem de mais importante e põe no seu lugar uma paródia.
Se os espiões do Ocidente e suas mulheres tivessem de fato se comportado como mostram os recentes filmes americanos de espionagem, os russos teriam vencido a Guerra Fria em 1947, mais ou menos. E teria sido bem feito. Afinal, só assim poderíamos ver, finalmente, Susan Sarandon, ou quem sabe George Clooney, de chinelos Rider, com a caderneta de racionamento na mão, discutindo com uma mulher que tentou furar a fila do açúcar.
A luta silenciosa entre o agente honesto, bem-intencionado, e seus chefes malévolos, interessados em fomentar a Guerra Fria, não é tão recente no cinema americano. Mas, com o fim da URSS, tornou-se o prato favorito da esquerda festiva que borbulha em Hollywood. O modo como se deu o desaparecimento do império soviético forneceu novos argumentos aos que, no passado, confortavelmente instalados na mais rica e democrática das sociedades, excitavam-se em flertar com a barbárie. Um império que desmorona sem um tiro não pode ter representado, em qualquer época, uma ameaça real - imaginam. Daí concluem que a Guerra Fria nunca ocorreu, como decerto nunca existiram aqueles milhares de mísseis prontos para explodir os EUA e a Europa. Tudo não era mais que uma invenção da direita americana e do “complexo industrial-militar”. Logo, os políticos e agentes do governo empenhados em lutar contra a URSS não passavam, na melhor hipótese, de paranóicos e, na pior, de espertalhões que não hesitavam em destruir vidas e carreiras para garantir às empresas americanas a oportunidade de bons negocios. É contra eles que o “mocinho” do filme de espionagem moderno irá lutar. Eram eles – e não a URSS, a China, etc. – que verdadeiramente encarnavam o Mal.
A outra luta do “mocinho” se trava no front doméstico. Embora o feminismo só tenha sido incorporado à vida cotidiana dos EUA a partir dos anos 70 do século passado, como fruto da "contracultura", nos filmes recentes de espionagem todas as esposas dos agentes secretos são ferozes feministas, a despeito dos acontecimentos do filme se passarem em 1946, 1950, por aí. Além de não aceitar a divisão de trabalho tradicional que predominava então nos lares americanos (mulher devotada à casa, homem dedicado ao trabalho), essa feminista avant la lettre não admite, também, que o marido (agente secreto em plena Guerra Fria) lhe oculte algo. Ai dele se chegar tarde e não lhe der minuciosas explicações, ou se viajar a trabalho e faltar ao jogo de futebol do Junior no sábado. Não interessa à mulher se os russos acabam de bloquear Berlim: o marido tem que lhe contar, com detalhes, por que viajou às pressas para a Alemanha e não voltou a tempo para o almoço com os sogros. “Essa história de combater o comunismo é problema seu. Aqui em casa seu compromisso é comigo e com as crianças".
As mulheres dos novos filmes americanos de espionagem são, invariavelmente, estúpidas, egoístas e mimadas. Sua função, no plot, é transformar num inferno a vida dos infelizes maridos. E o pior é que, por sua vez, também estes são uns moçoilos frágeis e sentem profunda angústia por “trair a confiança” das chatíssimas esposas. Mesmo de posse do mais terrível segredo, que não deve confiar nem ao seus superiores, o agente “politicamente correto” sente-se um miserável se não puder contar a história toda, imediatamente, à mãe dos seus filhos. Ele quer “to share” tudo com ela. Mas seus chefes insensíveis e frios - homens e mulheres divorciados, solitários e infelizes - vivem a adverti-lo para que fique de boca fechada. Que sofrimento, meu Deus! Quanta incompreensão! Por isso, no fim do filme, depois de desarmar onze bombas atômicas e salvar o mundo, o agente secreto prefere abandonar o trabalho na CIA ou no FBI para viver uma vida simples e prosaica num condado rural no interior dos EUA, uma vida genuina, autêntica, que lhe permita “vivenciar” tudo, sem segredos, com os filhos e a cara-metade. E plantar alface hidropônica, se sobrar um tempo.
Só roteiristas politicamente corretos teriam uma idéia tão pueril do mundo da espionagem do século XX. Provavelmente leram, por obrigação, Conrad, Graham Greene ou Le Carré, mas resolveram “melhorá-los”. E aí está o problema: sempre que o politicamente correto resolve "aperfeiçoar" uma tradição, destrói o que ela tem de mais importante e põe no seu lugar uma paródia.
Se os espiões do Ocidente e suas mulheres tivessem de fato se comportado como mostram os recentes filmes americanos de espionagem, os russos teriam vencido a Guerra Fria em 1947, mais ou menos. E teria sido bem feito. Afinal, só assim poderíamos ver, finalmente, Susan Sarandon, ou quem sabe George Clooney, de chinelos Rider, com a caderneta de racionamento na mão, discutindo com uma mulher que tentou furar a fila do açúcar.
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Subdesenvolvimento não se faz da noite para o dia
Se ainda restasse dúvida sobre a origem do nosso subdesenvolvimento, o Estadão de hoje convenceria os que teimam em acusar o “imperialismo” e assemelhados por vivermos no Terceiro Mundo.
De 2002 a 2006, trinta municípios brasileiros receberam pouco mais de 14 bilhões de reais em royalties de petróleo. O que fizeram com o dinheiro? Basicamente, contrataram pessoal, em grande parte terceirizado, por meio de Ongs amigas e artifícios do gênero. Por conta disso, Cabo Frio – sim, a pujante Cabo Frio! - tem hoje quase 10 mil “servidores públicos”. Campos tem quase 23 mil. Búzios tem mais de 2200!!! Prefeitos de todas as legendas, de todas as “ideologias”, de esquerda e de direita, todos, virtualmente todos, empregaram a nova riqueza de acordo com o que acreditam ser o Bem Público. E entre nós, como se sabe, promover o Bem Público consiste, em primeiríssimo lugar, em arrumar um bom emprego no Estado para um amigo. Mas pode ser na prefeitura...
De acordo com o Estadão, salvaram-se, no período, quatro raríssimas exceções: os prefeitos de Niterói-RJ, São Sebastião-SP, Macau-RN e Magé-RJ. O jornal não informa se preferiram investir o dinheiro dos royalties em coisas realmente importantes ou se simplesmente deixaram tudo como está. O fato é que não contrataram. Só por isso, e mais nada, os cidadãos desses municípios deviam, agradecidos, erguer-lhes estátuas e outorgar-lhes a medalha Inimigo do Subdesenvolvimento. É o mínimo que merecem.
De 2002 a 2006, trinta municípios brasileiros receberam pouco mais de 14 bilhões de reais em royalties de petróleo. O que fizeram com o dinheiro? Basicamente, contrataram pessoal, em grande parte terceirizado, por meio de Ongs amigas e artifícios do gênero. Por conta disso, Cabo Frio – sim, a pujante Cabo Frio! - tem hoje quase 10 mil “servidores públicos”. Campos tem quase 23 mil. Búzios tem mais de 2200!!! Prefeitos de todas as legendas, de todas as “ideologias”, de esquerda e de direita, todos, virtualmente todos, empregaram a nova riqueza de acordo com o que acreditam ser o Bem Público. E entre nós, como se sabe, promover o Bem Público consiste, em primeiríssimo lugar, em arrumar um bom emprego no Estado para um amigo. Mas pode ser na prefeitura...
De acordo com o Estadão, salvaram-se, no período, quatro raríssimas exceções: os prefeitos de Niterói-RJ, São Sebastião-SP, Macau-RN e Magé-RJ. O jornal não informa se preferiram investir o dinheiro dos royalties em coisas realmente importantes ou se simplesmente deixaram tudo como está. O fato é que não contrataram. Só por isso, e mais nada, os cidadãos desses municípios deviam, agradecidos, erguer-lhes estátuas e outorgar-lhes a medalha Inimigo do Subdesenvolvimento. É o mínimo que merecem.
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sábado, 12 de abril de 2008
Os professores de Lula
Por que Lula nunca quis cursar uma Universidade ou, ao menos, frequentar os livros? Porque não sente respeito pelas pessoas com títulos de educação superior. Quem o ensinou a desprezá-las? Elas mesmas. Depois que foi transformado em “líder sindical”, todos os intelectuais que encontrou prostraram-se diante dele como se contemplassem uma aparição da Virgem. Muitos, inúmeros ainda estão de joelhos. Lula tirou suas conclusões: se os que estudaram comportam-se como lacaios do que nunca estudou, para que servem os livros?
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sexta-feira, 11 de abril de 2008
Cinéfilo Iniciante
- Legal a sua coleção de DVDs. Quantos são?
- Uns quinhentos.
- Você tem Os Sete Samurais?
- Não sei se tenho todos...
- Uns quinhentos.
- Você tem Os Sete Samurais?
- Não sei se tenho todos...
Emenda Parlamentar
Ato da Mesa da Câmara que transforma em feriado a sexta-feira, quando há um feriado na quinta...
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Cada um dá o que pode
A direita invejosa diz que o PT não tem programa de governo, só quer o poder. É mentira, como sempre. Os revolucionários franceses tinham um programa com três palavras: liberdade, igualdade e fraternidade. Os revolucionários russos pediam paz, terra e liberdade. O PT, herdeiro dessa tradição gloriosa, não iria agir diferente. Por isso, seu programa revolucionário também tem três palavras: Luís Inácio Lula da Silva.
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